Basta que eu lembre dos meus 17 ou 18 anos para que a vergonha tome conta de mim. Eu era um rapazinho prepotente, falsamente religioso e inteiramente engajado na realização do ideário esquerdista. Quando eu abria a boca em público – e para minha tristeza isto aconteceu muitas vezes – todo tipo de lugar-comum e análise tacanha ecoavam pelos ares, com a mesma substância dos diálogos de Malhação, da TV Globo.

O fato de ter participado e liderado grupos de jovens, ser matriculado em Direito e História e viver o início da juventude no momento em que Lula se preparava para conquistar seu primeiro mandato presidencial, colaborou imensamente para a cristalização de uma capacidade tipicamente adolescente: a idiotia. Como a grande maioria de rapazinhos e raparigas, eu acreditava que o mundo era tal qual eu pensava; jurava, desta forma, ter o segredo da vida nas minhas mãos. Aquilo que se opunha ou fazia alguma resistência ao meu mundo-ideia era ou descartado, ou rechaçado com a veemência sentimental comum nos incipientes.

Pela graça de Deus e também minha, o idiota tem se percebido como tal e, por isso mesmo, trabalhado para crescer. Aquela história de amadurecer é realmente séria e, nos dias em que vivemos, não vem com naturalidade, como outrora. Nunca foi tão difícil ser um homem, grave, responsável, minimamente substancial: tudo à nossa volta impele o contrário. Uma das coisas mais comuns é encontrar trintões alegrinhos, governados por ideologias e sentimentos, incapazes de um olhar objetivo sobre a realidade. Estes mesmos meninões opinam sobre tudo, compartilham aquelas notícias falsas (porém impactantes), aplaudem Gregório Duvivier e sentem-se seguros por ter previdência privada.

O fato é que a juventude – que deveria passar logo, com o menor número de danos possível – não só está se prolongando como também se tornando modelo de vida. É super legal “manter-se jovem”. E por ser tão admirável, nobre e desejável, devemos ter o cuidado de ouvi-la, compreendê-la, aceitar “sua verdade”. Só por isso alguém de 17 anos sente-se confortável num canal de Youtube dando lições a toda gente. Também só por isso alunos têm voz equivalente a de professores em escolas, seus conselhos e debates.

Pedro Lain Entralgo, grande médico e pensador espanhol, certa vez escreveu que a adolescência é um tempo dramático; configura-se pela falta de passado (não houve vida suficiente ainda) e de futuro (as escolhas e projetos radicais não foram feitas). Na juventude, por mais que algumas decisões já tenham sido tomadas, algumas experiências desfrutadas, não foi possível aprofundá-las: despi-las de seu subjetivismo e instalá-las numa dimensão “modal”, desde a qual passam a colaborar na compreensão da existência humana (e não apenas da sua mísera vidinha).

Contudo, adolescentes e jovens são os menores culpados pela histeria predominante. Eles estão apenas sendo adolescentes e jovens, gritando e esperneando (como sempre) seus anseios, desejos (que mudam conforme a tendência dos aplicativos do smartphone) e receitas para sociedade. Antes, ninguém dava muita importância para o que diziam; suas frustrações ficavam registradas em diários, poemas de pouco valor e conversas entre amigos da  mesma idade. Agora, depois de tanto Paulo Freire e progressismo, suas petições têm a respeitabilidade de um texto sagrado.

O homem é histórico; na passagem e vivência do tempo encontra e faz a si mesmo. É lógico, portanto, que aqueles que mais tempo viveram, mais substância da vida humana puderam colher. Por isso o conselho de dar ouvido aos mais velhos – confiar na experiência acumulada dos anciãos – não é apenas retórica: tem todo o sentido de ser. Somente num mundo em que velhos são igualados a jovens, alunos decidem currículos, “vlogueiros” são formadores de opinião e adolescentes escrevem na Folha de São Paulo é que a admoestação perde seu valor prático.

Para terminar: estes dias uma amiga indicou um artigo em que a autora comentava o novo disco da Adele. Nele, várias razões apontadas para que a cantora não se sentisse mal por “estar do outro lado” ou “mais velha”. Na  mesma mensagem, minha amiga dizia que agora, com mais de trinta anos, começava a vislumbrar o melhor da vida: tudo o que poderia ser desfrutado verdadeiramente, ao lado do marido e dos filhos (leituras, viagens, amor, etc). Ela tem toda razão: Deus foi infinitamente bom ao criar as coisas dessa forma, tornando a vida mais clara a cada ano. Como um prêmio por saber viver, a idade pouco a pouco acumulada ajuda a desvendar os segredos da realidade, que é antipática à ansiedade, superficialidade e opinião.

Aos mais jovens é preciso ensinar estas coisas; se não com docilidade (porque as rejeitam à primeira instância), com força. Quisera eu ter encontrado alguns professores que me mandassem calar a boca.

 

 

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