Clube do Livro – dezembro de 2015 – Prof. Tiago Amorim

“Que meu romance contém diversas alusões aos impulsos fisiológicos de um anormal, isso é verdade. Mas, afinal de contas, não somos crianças, nem delinquentes juvenis e analfabetos, nem frequentamos aquelas escolas inglesas onde os alunos, após uma noite de folguedos homossexuais, são paradoxalmente obrigados a ler os clássicos em versões expurgadas”.                                                                                                       Vladimir Nabokov

 

Se é verdade que nos aproximamos dos livros com alguma disposição – para gostar, odiar, criticar, se emocionar –, com Lolita, de Vladimir Nabokov, não é diferente: todos sabemos o que pensamos antes de ler a primeira página daquela que é considerada uma das maiores obras do século XX e que narra a obsessão de um homem por uma menina de doze anos. Desde as suas primeiras dificuldades para publicação, Lolita tem sido um excelente instrumento de prova e análise desta disposição do leitor: o que pensa da história antes de verdadeiramente conhecê-la, e o que sobrevive ou se transforma após a experiência estética da leitura.

Não se trata de captar as “intenções do autor”. Estas, segundo Nabokov, não importam. Devemos nos ater ao que “está lá”, no fundo da experiência estética proporcionada, em primeira instância, pela maestria do escritor. Aplicando de forma metódica o conselho, deixar que a obra “fale por si”, ao mesmo tempo em que se perceba, conscientemente, a acomodação da experiência da leitura e seu importe vital imagéticos – pois é disto que se trata conhecer: alterar a própria alma pela adição de novas imagens que ficam à disposição do sujeito naquilo que chamamos memória.

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O que estou tentando dizer é que a disposição – para ler Lolita ou ir à praia – está ligada aos objetos de desejo do eu que, para serem desejados, precisam apresentar-se como imagem. São as imagens que atraem ou repelem a atividade. No caso da obra em questão, é comum o leitor se aproximar da história com a disposição moralista (afinal, pensa, é sobre pedofilia). E isto não poderia ser mais inibidor da leitura do grande romance de Nabokov: ainda que chegue ao final do livro, é bem possível que com esta perspectiva ele não consiga deixar que “aquilo que está lá” se revele. E no caso de Lolita, isto é previsto pelo escritor. Já no prefácio fictício do “doutor em filosofia” John Ray notamos o “tom moralista” do revisor do manuscrito que está sendo apresentado. Não deixa de ser uma fina ironia de Nabokov, que sabendo da disposição de muitos de seus futuros leitores, deu voz a seus pudicos pensamentos nas primeiras páginas da obra. “Todavia, mais importante do que sua relevância científica ou valor literário é o impacto ético que o livro deve exercer sobre o leitor sério, pois nessa dolorosa trajetória pessoal transparece uma lição de cunho genérico: a criança desobediente, a mãe egotista, o maníaco ofegante não são apenas personagens de um drama excepcional. Eles nos advertem sobre tendências perigosas, apontam para gravíssimos males. Lolita deveria fazer com que todos nós – pais, educadores, assistentes sociais – nos empenhássemos com diligência e visão ainda maiores na tarefa de criar uma geração melhor num mundo mais seguro”.

Quero demonstrar que é possível amar a obra sem amar Humbert Humbert. Sem que nossa “moral” seja corrompida ou nossa decência degradada. E amá-la pelo que ela nos revela e acrescenta acerca da vida humana e, mais propriamente, a minha.

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II

Vladimir Nabokov conta, no posfácio de 1956, qual a origem da palpitação para compor Lolita: “Tanto quando me recordo, o frêmito inicial de inspiração foi de alguma forma provocado por certo artigo de imprensa sobre um macaco no Jardin des Plantes, o qual, após ser persuadido durante meses por um cientista, enfim produziu o primeiro desenho feito por um animal: nele só apareciam as grades da jaula da pobre criatura. Esse impulso não tinha nenhuma conexão textual com a linha de pensamento por ele suscitada, da qual resultou, entretanto, o protótipo de Lolita, um conto de cerca de trinta páginas”.

Talvez as divergências históricas em relação ao que está em Lolita sejam frutos, também, de uma incompreensão de seu frêmito gerador. O próprio autor não nos ajuda, deixando claro não haver conexão textual entre o artigo lido em Paris, em 1939, e o livro. Porém, alguma conexão existe, pois Lolita é a prova de que algo da vida foi “informado” a seu autor no momento em que ele leu sobre o macaco e seu desenho. O que seria?

Vamos ao livro. Nosso narrador é um homem maduro, réu de um processo criminal e psiquicamente doente. Por diversas vezes dirige-se a nós como “juízes”: sua narrativa é uma espécie de defesa. Não apenas isto; é também uma imagem parcial do que acontecera. Em nenhum momento escutamos a voz de Lolita, ou de sua mãe. Tudo – absolutamente tudo – que sabemos é por meio da interpretação do réu louco, Humbert Humbert (professor aficionado às meninas por ele consideradas ninfetas). Portanto, nossa visão dos fatos é a visão do pedófilo – e aqui reside o fato de que jamais Nabokov poderá ser confundido com um apaixonado por meninas: não é ele, o escritor, quem faz a veemente defesa das relações sexuais imorais, mas o personagem que – ora bolas! esquecemos se tratar de um doente. O que seria mais fácil para um autor: compor uma obra em que ficasse evidente a crítica à pedofilia, por meio de um narrador observador ou personagem admiravelmente ético ou, como faz o criador de Lolita, escrever uma história em que apenas o louco tem voz e todos os seus mecanismos internos tornam-se evidentes?

Humbert ficara dois anos internado (algo para o qual ele dá a mínima importância). O mesmo narrador-personagem descreve o tipo de “demônio” que ele reconhece como ninfeta, o quanto a perversão tomava conta de seus desejos, a sua falta de atração por mulheres maduras, a sua manipulação dos corpos femininos (dando pílulas de sono, por exemplo), a sua falta de escrúpulos em viajar pelo país fazendo sexo em diferentes hotéis com a menina de doze anos que lhe chamava de “pai”. “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo-li-ta”.

Em poucas palavras, Humbert é um pedófilo romântico: justifica interiormente suas ações por meio de um “bom sentimento”, uma paixão sincera, diria. Para doentes como este qualquer coisa que a menina faça será interpretada de forma a corroborar seus desejos e intenções. “Fora do olhar maníaco do senhor Humbert não há ninfeta”, destacou Vladimir Nabokov em uma entrevista. Ou seja: a obra é irônica e não devemos levar o narrador-personagem a sério. Jamais. Nem mesmo quando ele tem um relâmpago de arrependimento – por ter destruído a infância de Lolita: ele cometerá um homicídio contra aquele que, em seu juízo, o impediu de redimir-se (admirável, não?).

Mas a obra de Nabokov não é uma condenação subliminar à pedofilia (isto pode ser considerado um efeito secundário da leitura). Seu importe vital – aquele, nascido da palpitação causada pela leitura do artigo sobre o macaco desenhista – não poderia ser um conteúdo moral. O próprio autor deixa isso claro: “Há boas almas que considerarão Lolita irrelevante porque não lhes ensina nada. Não escrevo nem leio obras de ficção com fins didáticos, e, a despeito da afirmação de John Ray, Lolita não traz nenhuma moral a reboque”. Portanto, não é disso que se trata a obra.

O que fez o macaco quando impelido pelo cientista? Desenhou as grades de sua jaula. As grades. As grades, senhoras e senhores.

Quem é Humbert Humbert? Por que esta duplicação no nome? Talvez porque seja necessário frisar a repetição. Duas vezes, a mesma coisa. De novo, de novo, de novo uma ninfeta, uma atração por menina, um desejo sexual por um ser que só deveria inspirar pureza. Tal qual uma prisão interior, o narrador-personagem vê tudo através destas grades doentias. Não enxerga nada além disso. Não consegue romper com a repetição, a inclinação abjeta que o escraviza. É um homem vazio que tem uma falsa compreensão de si mesmo (acha-se um homem bonito, irresistível, mas não é isso que a maioria das mulheres vê, como notamos na leitura do romance). Lolita mesmo resiste. Depois de possuída, tenta fugir diversas vezes e acaba fazendo sexo por dinheiro (o que diz mais sobre ele do que sobre ela, no caso).

Por mais que tente se defender, Humbert Humbert não pode nos persuadir de sua bondade e intenção. Para todos os efeitos, em qualquer circunstância que adotemos, ele é um impotente; doente até o último recôndito de sua alma.

Compreendem que neste sentido todas as suas disposições estão, de antemão, viciadas? A vida é vista desde uma diminuída e perversa perspectiva? Qual o tamanho da ironia de que este mesmo homem seja professor de literatura, arte-educativa das disposições?

No fundo, a obra de Nabokov me parece mais um de seus testemunhos em prol do indivíduo, da verdade modulada pela autoria, do gozo da confissão da vida como ela é: intensa, complexa, abrangente. Sou eu quem deve continuamente observar a si mesmo e a vida no intuito de alargar a própria visão. Talvez seja este o impulso que movera o autor de Lolita: a percepção das grades, e de que nossas disposições sempre correm o risco de ser enjauladas.

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