Desde quando algum decreto oculto e não rastreável obrigou os seres humanos a opinarem sobre todas as coisas, vivemos tempos estranhos em que as coisas todas lançadas no mesmo espaço de realidades públicas já não diferem em importância. Ao assumir a postura legalista de ter de dizer algo sobre absolutamente tudo, perde-se a reserva de intenções com a qual projetamos sobre partes do mundo nossa luz de compreensão e nosso desejo de intimidade particular. É porque preferimos umas coisas a outras e nos detemos em certos aspectos da vida enquanto ignoramos o resto, que somos capazes de verdadeiramente saber algo, dar um tom aos movimentos da nossa existência que não se confundiria com o falatório das praças. A estrutura mesma de nosso aprendizado é muito bem representada no simbolismo natural da noite e do dia, ou das luzes e das trevas: vivemos a correr de um ponto claro para outro escuro que necessita nossa inteligência, e enquanto este mesmo ponto se esclarece pouco a pouco – por obra do estudo, da atenção, da vontade de conhecer ou da contemplação – outros milhares ficam à sombra, no limbo da ignorância que ressumará sempre sua presença.

Portanto, sendo natural nossa apreensão parcial e preferencial do mundo – a zona escura que pretendemos pessoalmente clara – é também natural que no cotidiano uma série de assuntos e realidades se nos escapem. E isto pelo simples fato de que é impossível que tudo seja não só relevante para cada um de nós, como também passivo de escrutínio. A grande verdade é que devemos morrer todos os dias para uma grande parte da vida, que seguirá nebulosa ou inconsciente para nós.

Por isto, uma das revelações da maturidade e do saber viver é a constatação de que ser indiferente a algo é atitude até mesmo desejável. A economia das intenções – que ao longo do tempo engendra aquilo que chamei de reserva – ensina que é bom ajudar a natureza: o mundo é mesmo vasto, e tendo eu que dele provar um bocadinho, prefiro assegurar-me de que este bocadinho não fuja. E para que tal não aconteça, é preciso que todo aquele outro bocado receba de mim minha mais solene indiferença. Ao assumir (como um direito) que não preciso opinar, nem achar, nem saber uma série de coisas, começo a perceber que o fardo é leve e o jugo é suave; é mesmo assim a vida humana e seus limites impelem-me à graça (da descoberta, da intimidade, da adivinhação).

Sou indiferente aos tons de rosa num vestido de formatura, à eleição do prefeito de Sapopema, ao que tem escrito Paulo Coelho, aos jogos olímpicos de inverno, às teorias de tantas ciências, à opção sexual das pessoas, à conta bancária de um aluno quando me pede explicação. Tanto se me dá, dizemos no interior. Não quero e não preciso pensar ou ter posição a respeito dessas e de tantas outras condutas ou realizações humanas. Tal como o conhecimento é necessariamente fruto de um ato de eleição, concedo-me o direito salutar de manter-me indiferente a tudo que não elegi prioritário (e não entramos aqui, por falta de espaço, na perspectiva aristotélica dos bens desejáveis em si mesmos, por toda gente).

Sendo a indiferença saudável, o desprezo o também é: precisamos desprezar para amar. E se a indiferença é fruto de uma não ponderação de valor – não quero saber se aquilo é bom ou mau, polêmico ou ultrapassado – o ato de desprezar decorre de uma ponderação prévia e está intimamente ligado ao meu conjunto não só de interesses, mas principalmente de valores e atenções. Desprezo algo, alguém, uma atitude, precisamente porque seu sumo é oposto àquilo que amo, venero, tenho por intenção ver resplandecer, revigorar, expandir, etc.

Eu não sou indiferente aos abortistas; eu desprezo-os porque amo a vida inocente. Desprezo a falsa religiosidade, a carência afetiva numa pessoa adulta, as mulheres masculinizadas e os homens existencialmente efeminados. Desprezo com todas as forças aquela ignorância vil, prepotente e orgulhosa; os grupos ideológicos do tipo ecossexuais, o Leandro Karnal e todo o bacanal midiático que nos assalta o coração. Desprezo a massa, porque amo a individualidade – único reduto que abre para a verdadeira comunhão.

É preciso lançar mão do português claro: ser indiferente a uma série de coisas e nutrir alguns desprezos poderá fazer de nós alguém para além do óbvio, do denominador comum a que a riqueza da vida tem sido reduzida pela tagarelice da tolerância (a tudo e a todos), da igualdade de opiniões (que impede o julgamento de valor) e do fingimento de interesse (aquele típico de adolescente revoltado com a guerra na Síria, por ele conhecida através da internet).

Encerro com um exemplo real de aplicação desses conselhos: o famigerado simpósio sobre diversidade que se deu em plena Universidade Estadual de Maringá, sob a tutela do estado do Paraná e a garantia do dinheiro dos contribuintes, é algo que não podemos trazer para o “plano das ideias”, do debate democrático ou coisa que o valha: a coisa em si merece nosso total e absoluto desprezo, já que considerar sua realização passiva de um argumento minimamente válido para uma discussão pública é aceitar que, em alguma medida, o que fizeram professores e alunos envolvidos é aceitável. Como não o é, em nenhuma dimensão humana, então devemos mesmo é desprezar o acontecido e seus supostos significados. Ironia, se bem usada, é muito bem-vinda.

Se já existem manifestos acadêmicos a defender este recente circo patológico erguido em Maringá, sou indiferente.

 

 

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