A partir do momento em que Maquiavel publica O Príncipe a política torna-se ciência autônoma. Até então, pode-se dizer que esta mesma dimensão da vida humana era compreendida dentro da perspectiva teleológica e metafísica que preponderava no Ocidente, como se observa nos escritos de Aristóteles ou nos pensadores medievais.

É o caso também de Santo Isidoro de Sevilha, que ainda na Antiguidade Tardia (expressão que empresto do professor Renan Frighetto), foi o grande responsável por converter a corte visigoda ao cristianismo. Em sua obra máxima, Etimologias, trata também de política, pois era preciso não apenas converter os governantes bárbaros, mas também ensiná-los a governar como membros da Igreja. E foi Isidoro quem formulou – talvez pela primeira vez na história da Igreja – o conceito de príncipe cristão: aquele que age em nome de Deus na busca do bem comum.

Isto deu tão certo e foi tão difundido durante a Idade Média, que é comum encontrarmos referências a esta mesma noção em obras tardias que revelam, no conjunto, a preocupação dos políticos católicos em ser esta ação inspirada por Deus na sociedade. Desde o batismo de Clóvis, no início do século VI, até os reis taumaturgos do medievo central (ver a obra de Marc Bloch a respeito), passando por esta problematização consciente e propositiva de Santo Isidoro, é justo afirmar que a política, antes de Maquiavel, era encarada como forma de caridade (a isto fez referência o Papa Francisco recentemente). Obviamente houveram desvios individuais, mas o argumento geral é válido e historicamente atestado. O livro de Marcelo Cândido da Silva, A Realeza Cristã na Alta Idade Média, traça um perfil desta nobreza religiosa (particularmente a francesa), demonstrando a relação íntima e indissociável entre teologia e política.

Ou seja: Maquiavel iniciava, com sua obra moderna, a quebra de um paradigma, percebida na particularização e segmentação da política. Segundo sua visão, os governantes são dispensados do  dever moral e da observância de valores a priori (discussão que remonta a Aristóteles, novamente, e que envolve concepções jurídicas opostas). Há tradicionalmente quem defenda o direito natural e as leis inscritas no coração do homem – o que significa, a grosso modo, uma crença na origem metafísica do mundo e um reconhecimento de direitos fundamentais e atemporais, como à vida e à liberdade. Mas o autor de O Príncipe está na outra ponta: para ele e toda uma nova e complexa escola surgida a partir de então, o direito e a moral são frutos da vida social e das escolhas a posteriori. Não há hierarquia de valores e princípios, diz Maquiavel, nem moral desejável (senão aquela determinada pela constituição social, conduzida pelo governante).

Daí que o sentido de sua conhecida frase (“os fins justificam os meios”) seja justamente este: o governante deve ser julgado pelos seus resultados, e não pela motivação ou causa de suas ações.

É aqui que a realidade política brasileira entra: por quanto tempo nossos meios de comunicação, nossos “intelectuais”, nossos atores públicos e classe política foram coniventes com o Partido dos Trabalhadores? Eu respondo: pelo tempo que duraram os bons resultados econômicos (sejam eles mérito do PT ou não).

Não se viu manifestação popular expressiva durante os oito anos do governo Lula. As “pessoas de bem”, hoje vestidas de verde e amarelo, amantes dos símbolos nacionais e preocupadas com o destino do país, não ergueram suas vozes contra a ditadura petista que se erguia a olhos nus, com aparelhamento das instituições (inclusive do STF), conchavos políticos à luz do dia (vide Mensalão), homicídios mal explicados (Celso Daniel), monopólio dos jornais, dos institutos de pesquisa, da produção cultural etc.

O que estava fazendo a brava gente brasileira durante esse período de costura maquiavélica feita pelo (hoje) odiado PT? Respondo de novo: salvo parcelas minoritárias da população, estava curtindo a boa onda econômica, aplaudindo os resultados petistas.

Maquiavel não poderia estar mais contente. Aqui no Brasil sua teoria encontrou ressonância como em poucos lugares do mundo. Os governantes e os governados concordam que um roubo ali, um aborto de anencéfalos aqui, não tem problema. Importa o resultado final, que deve expressar a moral eleita coletivamente. No nosso caso, money no bolso.

É preciso dizer que a crise política atual é o aspecto mais superficial da baixeza moral e espiritual a que nos dispomos viver e transmitir desde 1500. Lembremos disso ao iniciar a limpeza que dizemos ser necessária.

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