Assumir a própria vocação é assumir um limite: serei este, precisamente este, e nenhum outro mais. Muitos de nós passam a vida aspirando a este limite que, ao invés de causar angústia, dá sentido ao restabelecer a origem e o destino daquilo que cada um toma por realidade radical.

Limite, genericamente falando, não tem sido bem uma aspiração atualmente; é justamente o contrário daquilo que desejamos. Queremos ultrapassar os limites, ser mais do que saciados, gozar sem consequência. Aquilo que define, impede, restringe, é taxado negativamente – e por isso é comum lamentarmos a “falta de espaço” existencial. Ansiosos por toda a vida que está aí – aparentemente disponível e aparentemente para todos – não concordamos com a impossibilidade. Ela nos ofende na imaginação farsesca e histérica que cultivamos.

Mas não existe vida humana sem limite. Quando nascemos, somos apresentados individualmente ao mundo porque temos um corpo: os limites de nossos dedos são o “até onde” vamos. Também um copo é um copo porque materialmente está definido (nem é preciso lembrar de Aristóteles e da filosofia da forma – está subentendida). Minha primeira noção de individualidade e identidade vem da apreensão física da minha realidade radical: “sou este aqui”, penso quando bebê, “separado de minha mãe e irmãos; meus pés, mãos, boca”. O corpo, dizem alguns dos filósofos espanhóis, é o primeiro fato de individuação existencial. Por definição, corpo é um limite – e mesmo na eternidade teremos um (não sabemos bem qual ou como, mas teremos).

Se avançamos na estrutura da vida humana e nas dimensões da pessoa, percebemos que o limite é elemento continuamente presente: ao me apaixonar por mulheres, determinei um novo limite; ao estudar mais assiduamente a Escola de Madri, outro; ao ser professor, mais um, etc. Viver é eleger, dizia Ortega y Gasset. De todas as possibilidades do universo, nem todas são para mim; das que são para mim, algumas serão assumidas, escolhidas; outras não. E a vocação, entendida como determinação admitida, é o limite que expande: tal como o coração (que funciona pelo movimento de contração e extensão) ela impele à contração existencial – escolho uma coisa só: ser eu. E esta escolha ou contração é capaz de gerar expansão, o que, no caso humano, chamamos de autoria ou felicidade.

No Natal temos renovadas todas as possibilidades humanas. O Filho de Deus nasce para de novo, e de forma irrepetível, salvar o mundo (ou seja: manter abertas as trajetórias de felicidade disponíveis para nós). Sou eu quem, com fé renovada, retomo aquilo que é meu e exerço o direito inalienável de herdeiro do Paraíso – aquele lugar de todas as possibilidades, mas onde instalam-se apenas o que amaram as próprias.

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Eu, Tiago, em meu nome e de minha família, agradeço a você pelo ano que de alguma forma vivemos juntos (e que este site possibilitou). Desejo sinceramente um feliz natal a você e aos seus.

Grande abraço.

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