Para mim é muito claro: a coisa mais importante, mais radical, mais inconsciente ou conscientemente desejada pela grande maioria de nós é a comunhão com os outros. São nestas experiências, com maior ou menor familiaridade, mais ou menos gente envolvida, no clube ou na igreja, que conquistamos o modo de ser mais perfeito, pois cada um se sente insuficiente na irrepetibilidade que testemunha com a própria presença limitada no mundo.

Viver é querer encontrar. A individualidade parece ser o estágio anterior de uma verdadeira realização da aventura humana: tomando a si mesmo como realidade única, substancial, é natural o desejo de movimento para tudo que não é eu. Em outras palavras, somos atraídos pelos objetos que não são, a priori, realidade radical (e por isso nossas vidas são capazes de expansão – porque absorvem o que antes lhes era alteridade). Cada um sabe, também, do apetite de nós que toma conta de sua vida interior e ganha expressão nas trajetórias amorosas, nas relações amigáveis, nas participações em grupos, etc. “Homem algum é uma ilha”.

E de tudo que queremos – justamente por não termos, por não serem partes de nossos eus – as outras pessoas são as realidades mais dramaticamente interessantes. Comparo: quando nos dirigimos, por atração, a um objeto qualquer e o acomodamos em nossas vidas (por exemplo, o livro lido no último mês), já não somos os mesmos. Temos a realidade interior alterada e a alma já se reconhece como nova. Acontece o mesmo quando viajamos, quando comemos algo memorável, quando fazemos um curso: são experiências que acrescentam às circunstâncias pessoais e, se apenas delas dependêssemos, seríamos outros a cada amanhecer.

Mas existe aquela necessidade de identidade: ser o mesmo, o mesmo dado no nascimento como vocação, perseguido na forma de um destino que responde à origem do eu que lê, se alimenta e viaja.

Encontrar alguém e com ele comungar – tocar as próprias misérias – também pode realizar alterações existenciais. Entretanto, não é isso que primeira e exclusivamente a intimidade e o encontro podem fazer por nós. Paradoxalmente, geram um movimento centrífugo (com a saída de nós mesmos em direção ao outro) e no ato da comunhão nos devolvem para o núcleo pessoal que é sempre o mesmo. Queremos e precisamos do outro porque, de alguma forma, o nós realiza um ponte em direção à intimidade de si mesmo que o eu é incapaz fazê-lo.

Amar alguém ou comungar com muitas pessoas é sair em direção ao que é anterior e maior do que eu ou tu. Em resumo, o homem tem individualmente um destino comum: todos os beijos que demos, os abraços que distribuímos, as rodas de que participamos, as mãos que unimos e os compartilhamentos que fizemos serviram para saciar esta fome natural de mais vida. Pois é preciso que se transborde a limitada existência; tal como a graça, que superabunda.

No fundo, é isso que importa: queremos mais vida, mais vida, mais vida. E Deus, se me permitem a referência, é o Tu Eterno, como diria Gabriel Marcel; a Quem conquistamos à medida que nosso eu se consola no nós.

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