Tenho repetido em minhas aulas e palestras que a vida intelectual tem imposto outros desafios atualmente. Além de conhecer a verdade, encontrar meios de subsistência que não colidam com os princípios deste tipo de vocação, atualizar as conquistas da grande cultura na própria alma primeiro (e depois, auxiliar os alunos neste mesmo empreendimento), o homem de estudos de hoje tem de dizer coisas óbvias e preparar-se para o “ar de novidade” dos ouvintes.

Vejam, por exemplo, o “argumento” de todo o meu trabalho: meus cursos, textos, aulas servem ao propósito do “resgate do que deveríamos saber sobre nós mesmos”. Muitas vezes é constrangedor ter de dizer, a mim mesmo e aos meus alunos, que a vida humana tem sentido, que a intimidade é uma necessidade, que a vida coletiva é apenas uma expressão de somatória daquilo que individualmente se elege, concede, etc. Que tempos são esses em que é preciso pagar para alguém nos dizer que a vida tem valor, gravidade, projeção?

Por isso, dizer o que intimamente todos já sabemos tem sido minha tarefa principal. Quando penso em meu trabalho, penso na trágica necessidade dele. Não é outro o tema radical da minha vida, senão este: ser uma voz de resistência e provocação – resistindo ao infra-humano e provocando meus alunos a ouvirem a si mesmos. Sim, a si mesmos, pois como já ensinaram de diferentes formas Santo Agostinho, Louis Lavelle, Paul Diel ou Olavo de Carvalho, a “lei natural”, o “coração informado”, o “tribunal interior” presente em cada um tem a característica da insistência: o tempo todo estão a lembrar-nos quem somos, do que somos feitos, etc. O grande problema é deixar que estes sons da intimidade ressumem na consciência e produzam efeitos sob a tutela da vontade.

Levando tudo isso em conta, não há como não lamentar profundamente “debates” acalorados em torno de temas como ideologia de gênero, aborto, feminismo; todos, se tomados verdadeiramente em seus aspectos evidentes, deixariam instantaneamente de ser “polêmicos”. É sério mesmo que existe polêmica em torno do nascimento de uma criança? Que existe uma discussão sobre seu sexo?

Pior, ou mais grave ainda: há mesmo quem defenda que aquilo que está no ventre de uma mulher, fruto de uma concepção sexual, possa ser outra coisa que não um ser humano? Um tumor, talvez? Um girino?

Defensores do aborto – para me deter apenas neste tipo de negação da evidência – são de duas espécies: aqueles que não pensaram muito sobre o assunto, e aqueles que pensaram muito. Os primeiros são a maioria, possíveis porque hoje é perfeitamente normal você defender uma coisa sobre a qual não gastou muito tempo pensando – simplesmente ouviu alguns chavões, assistiu a uma aula na USP, clicou em dois vídeos do youtube e “voilá“: você é a favor do aborto e dos direitos das mulheres sobre seus corpos (sic).

A segunda espécie é mais perigosa, está empenhada em engenharia social, é próxima da grande mídia e sabe muito bem o que está fazendo: são eles verdadeiros psicopatas, justamente por saberem o que estão fazendo (no caso do aborto) e defenderem esta atrocidade com todo o cinismo que lhes é peculiar. Por que psicopatas? Porque qualquer pessoa que tenha pensado verdadeiramente no assunto, que tenha ido ao encontro da evidência – e não dos números falsificados pela ONU ou pelo PSOL – terá que confessar o que aquilo realmente significa: aborto é assassinato, pois não é outra coisa que está crescendo no útero da mulher; um novo homem, uma nova mulher, necessariamente.

Saber isto, e ainda assim manter-se a favor da interrupção da gravidez (modo doce de dizer assassinato) o coloca no time dos psicopatas. Infelizmente, goste ou não, é assim segundo a psiquiatria e o direito penal. E o fato de eu ter de dizer isso, escrever sobre isso, é uma vergonha para a espécie a que almejamos. Sim, almejamos. Pois, como já escrevi outras vezes, somos os únicos que correm o risco de “não-ser”, justamente pela liberdade que temos e a realidade de modo aberto que nos configura.

A vida humana é, neste sentido, uma conquista. Antes, a maioria dos homens preocupava-se em conquistar graus altíssimos de humanidade (por isso a cultura clássica, a religião, etc); nos tempos dominados pelas revoluções e ideologias de massa, aspira-se ao básico – um “mobral” da realidade humana: chegamos ao ponto de lutar para esclarecer que feto é diferente de tumor.

 

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