É possível que animais “humanizem” seus donos?

Trabalhei com uma coordenadora de escola, alguns anos atrás, que dizia – quando tocávamos no assunto “bichos de estimação”: “na minha casa, o que quer que ande e não seja eu, mato”. Era uma mulher de uns 56 anos, solteira, e vivia num apartamento bem arrumado e sem a menor evidência de mau cheiro, animais, insetos ou plantas. Seguia a filosofia de vida de que as outras criaturas, que não as humanas, eram objetos permitidos em espaços apropriados (zoológicos, fazendas, haras etc) e por quem não tivesse muito apreço pela arrumação e limpeza. Em outras palavras, uma lambida no rosto, pensava, era inadmissível aos nojentos e deveriam ser respeitados nisto.

Também acho que devam ser respeitados; ao mesmo tempo em que acredito que numa sociedade cada vez mais clean, álcool gel no modo de ser, a resistência e recusa das outras formas de vida criadas, principalmente a dos animais e plantas, é um risco a mais com o qual a pessoa precisa lidar a fim de não se perder em tanta antissepsia, vendo sua substância ir pelo ralo junto com o resto do alvejante. No tempo em que os homens cresciam com os pés na terra, brincavam com bichos, subiam em árvores e “sentiam” o mundo criado, este perigo era bem menor. Hoje, cercados de aço inox, paredes frias e ar-condicionado, somos mais tentados a ver da vida apenas sua matéria bruta, enquanto forçamos um tipo de relação com o que é impossível se relacionar; acariciamos o celular, contemplamos o sofá, “brigamos” com o chão riscado.

E assim passamos a ser coisificados pela ação das coisas que entram em contato conosco. A mais interessante evidência é justamente esta: projetamos nas mesmas matérias frias nossa necessidade de relação e intimidade; nossa insuficiência para atualizarmos a humanidade que, como disse Ortega y Gasset, admite graus e pode ser conquistada paulatinamente ou não. Existem, pois, pessoas com maior ou menor humanidade, dadas as escolhas e relações que cada um estabeleceu especialmente com outros atores passíveis disto (homens, mulheres, animais, plantas). De ser vivo para ser vivo – cada um dando sua resposta adequada – a vida humana humaniza-se conforme a interação. Se a interação é com um cachorro, uma dimensão atualiza-se; se com uma pessoa, outra dimensão, respeitando a hierarquia celeste que, como ensinara Dionísio Areopagita, começa com os seres angelicais e termina com a flora. Conseguindo me relacionar com estes seres, dos anjos às flores, conquisto dentro de mim as chaves da intimidade com o mundo.

Por isto, e neste sentido, um gato de estimação, um pássaro ou um cão podem humanizar alguém. Eles têm a incômoda característica de oferecer tudo que são, em pleno ato, revelando a total submissão de sua vida à determinação da realidade. Nem gatos, nem cães, nem pássaros “reclamam” da vida, questionam a natureza das coisas ou começam revoluções. São dóceis – o cão, mais do que qualquer um – e por isso verdadeiros amigos que ensinam pela simples presença graciosa. Encontrá-los em nossa realidade radical é, por este raciocínio, penetrar uma dimensão da vida humana que é indispensável a quem queira ser verdadeiramente alguém.

Eu já fui um daqueles que matava com minha frieza toda vida que julgasse inferior. Mas, por obra do destino e da minha própria consciência, fui salvo pela entrada de um animal de estimação em minha vida. Sua entrada, aliás, não poderia ser mais reveladora do “apetite de salvação” que todos temos e que não podemos abafar pelo simples fato de que não se cala o fundo insubornável. Foi num domingo de manhã que, recém-casado, acordei e de chofre disse à minha mulher: hoje vamos comprar um cachorro. Três horas depois ele estava “patinando” no chão liso da nossa sala de apartamento, chorando de madrugada e fazendo suas necessidades onde bem entendia.

Eu mesmo tive dúvidas de que aquilo era uma boa ideia. Fui levado apenas pela certeza interior de que eu, mais do que ninguém, precisava ser humanizado. Eu não sobreviveria muito tempo – nem conquistaria maiores graus de humanidade – mantendo minha distância da Criação, meu desprezo pelos inocentes que começava justamente com os animais e plantas. Era preciso uma atitude radical de minha parte – coisa que, para mim, nunca foi muito difícil. Gosto de radicalismos.

Quando estou me sentindo um boneco de plástico, sinto o cheiro do meu cachorro e ouço seu carente pedido para subir na minha cama. Enquanto aperto estas teclas sem temperatura, vejo-o aqui do meu lado lambendo suas patas, ansioso para um passeio. É como se estivesse me dizendo: “que horas você vai tocar na vida de novo”?

Fica impossível resistir. E isto é tão bom, tão divino e tão redentor quanto simples. Meu cachorro me salvou da existência fria e me devolveu ao coração do mundo.

*ps: a foto é do Tales, lhasa apso que hoje tem 6 anos e 1 mês e está mais rabugento do que nunca

 

 

 

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