No século XIV, os otomanos – povo de origem turca que, àquela altura, formava um império transcontinental – invadiram a península balcânica. Dominaram, a partir de 1354, aquilo que hoje identificamos como sendo os Estados da Albânia, Macedônia, Bósnia, Sérvia e outros da região. Ainda no mesmo período, um sérvio destacou-se como líder da resistência nativa, tornando-se um grande libertador e, por isto mesmo, reconhecidamente herói. Chamava-se Marko (Марко Мрњавчевић, para atender aos mais exigentes), e sua história atravessou colinas e fronteiras, persistindo no tempo como forma de testemunho da bravura e engenho sérvios. Para além de todo o estudo feito de sua vida, através das fontes preservadas desde a Idade Média, suas realizações assumiram, no teatro do povo, as feições de um mito, cultivado a partir das lendas, cânticos e invenções que desde então lhe são dedicadas. Isto tudo para dizer que há Marko, de fato, e Marko, o mitificado, não menos real.

Interessa-me o segundo, desde que li “O sorriso de Marko”, conto de Marguerite Yourcenar. A autora belga dedica-se a registrar, com liberdade artística, uma das muitas versões que alguns feitos do nosso personagem receberam. Irei resumi-la aqui: na intenção de roubar os planos turcos e aproximar-se do inimigo, o herói, disfarçado, envolveu-se com um viúva que morava em Kotor. Passadas algumas noites, Marko teve o disparate de reclamar da comida servida pela mulher, humilhando-a. De orgulho ferido, cansada de esconder sob seu teto muçulmano um cristão nativo, a senhora quebra o pacto de amor e revela aos soldados locais o paradeiro do inimigo. Apesar de algumas tentativas de fuga, o futuro rei é preso e levado para o local de tortura.

Como a fama o precedia – já eram conhecidas suas capacidades de luta, superação de dificuldades, engenho e força -, e como a mulher ofendida queria plena vingança, as penas deveriam ser duras. Por sua vez, Marko fez-se de morto assim que capturado, mantendo-se rijo e frio como os animais em perigo sabiam-no fazer. Liderados pela viúva, os soldados, um pouco em dúvida sobre a condição do inimigo, aplicaram o primeiro castigo: com pregos e madeira, crucificaram-no. Nenhum movimento ou gemido do herói foi percebido. A pedido da mulher, seguiram para o segundo: pegaram carvões ardentes e puseram no peito do “morto”. Mais uma vez, o corpo de Marko não se moveu, e seus olhos continuaram fechados como os de um falecido qualquer. Entretanto, a cruel e humilhada senhora precisava de um última confirmação: mandou que chamassem as mais belas moças da aldeia, e que estas dançassem em roda, sensuais, aos pés do infeliz herói. Foi uma morena de longos cabelos que percebeu, discretamente, o rápido olhar de Marko para si, e foi a mesma donzela de beleza inigualável quem vestiu a boca do crucificado com um lenço vermelho, a fim de que ninguém notasse sua sutil expressão viva.

A lenda, e o conto, chegam ao fim como nas melhores gestas: Marko vence a cruz, destrói os inimigos e ainda desposa a bela jovem por quem sorriu. Nas palavras do narrador de Yourcenar, “não é a sua glória nem a felicidade de ambos que me comove, esse doce eufemismo, [mas] aquele sorriso nos lábios de um supliciado, para quem o desejo é a mais doce tortura“.  

Ainda sob o efeito da leitura desta história, perguntei-me dias atrás: que força é esta capaz de causar mais dor do que carvão em brasa e pregos sobre os ossos? Que estranho e aparentemente invencível movimento de alma é este que demove um herói de sua posição, impondo-se sobre a própria resiliência como um obstáculo praticamente insuperável? Em outras palavras: o que é o desejo, senão uma tortura consentida, e por isto mesmo a mais supliciante de todas?

Como nos animais, a alma humana carrega instintos, apetites e desejos. São estes pequenas vibrações das “cordas da existência íntima” que dirigem, ainda que por centésimos de segundos, o sujeito em direção a um objeto que, por atrai-lo de alguma maneira, tem necessariamente poder sobre ele.

Ninguém deseja o que despreza por ser fraco ou insuficiente. Temos, via de regra, fome daquilo que nos pode preencher. A imagem do estômago vazio desejando um bom pedaço de carne ao invés de um copo de água é interessante: matar o desejo é gozá-lo substancialmente, dando ao apetite a “quantidade” de objeto suficiente para apaziguá-lo.

O homem, entretanto, à diferença dos animais, tem a capacidade de preferir o copo d’água num dado momento, por motivos vários. Pode manter-se com fome, ou pode saciá-la parcialmente. Pode, inclusive, negar o desejo, tentando arrefecer sua força torturante a ponto de não mais sofrer sua inclinação perturbadora. Assim, por caminhos que não posso tratar aqui, fazem os homens do deserto, os místicos, os que não sucumbem à dança das jovens sedutoras em torno da própria cruz. Estes são aqueles todos que chegam às raias do heroísmo e não alimentam o suplício pessoal com que, vejam só, a maioria de nós impõe sofrimento a si mesmo.

Desejar é sofrer e reconhecê-lo: não tenho aquilo, aquele, aquela quantidade de vida, carne, dinheiro, cultura. Mais: a base do desejo é a confissão desordenada desta falta e, por consequência, do poder que o objeto desejado tem sobre mim. Como forma de autoconhecimento, a soma dos desejos que mais nos afligem são o quadro das nossas impotências e mais sinceras necessidades de consolação. É esta “imagem” de tudo que não temos que serve ao movimento da vida, aquele que nos leva de um objeto a outro – muitas vezes, contra todas as advertências da razão, instância geralmente preterida pela fome desgovernada.

Qual a saída, se até mesmo o herói mítico sorriu diante do corpo sensual da jovem dançarina?

Evitar ou reprimir, como linha de conduta, não parece ser a melhor solução. Falem o que quiser de Freud, mas nisto ele acertou – os efeitos das repressões contínuas podem ser devastadores da psique. Também o atendimento de todo e qualquer apetite faria de nós apenas os animais que sabem matemática, corpos e mentes definidos pelo instinto do momento. Dogmatismo religioso ou liberalismo moral são, a meu ver, faces da mesma moeda opressora da humanidade: as posturas mais radicalmente positivas ou negativas quanto ao desejo são igualmente comprometedoras da estrutura psíquica.

Talvez, e arriscando tocar questões de filosofia moral de dificílimo trato, o melhor seja o famoso “caso concreto”: há leis gerais de governança da própria alma, assim como há consciência e vontade envolvidas no processo. Entretanto, a concessão às pequenas torturas autoinfligidas, vez por outra, podem favorecer a própria vida. Um menino de dezessete anos que esteja sofrendo as influências deste meio cultural em que estamos – massificador, politicamente correto e avesso às qualidades do viril – talvez deva mesmo atender ao tesão que sente pela namorada e levá-la para cama. Ou arranjar algumas brigas, dar socos e levar pontapés. Algo desse animalismo me parece genuíno e necessário, pelas razões já expostas. Notem o que está acontecendo com as torcidas de futebol e as regras de comportamento dentro dos estádios: o lugar onde antes o “bicho homem” vociferava e soltava os demônios guardados durante a semana – o ódio pelo chefe, a irritação com a esposa -, promovendo um tipo de catarse semelhante, em alguma medida, à sofrida pelo público que assistia à morte de Agamenon nos grandes teatros gregos, agora vem se transformando em centros de boas maneiras, neurotizantes e idiotizantes. Não tardará ser culpa grave xingar a mãe do juiz ou cuspir no campo.

Marko serve para nos lembrar que os desejos são torturantes e doces justamente porque, por um lado, humilham-nos, destacando nossa insuficiência, sujidade, podridão, ou mesmo bons apetites (o desejo é amoral). Por outro, essas fomes mantém-nos alertas, como se atentos à vida que precisa continuar jorrando de dentro de nós em direção ao mundo. O gozo sexual, por exemplo, é morte e sublimação. É o que nos maltrata pela dependência e “necessidade”, e o que nos infunde aquela força subversiva para vencer a cruz, como se disséssemos às musas dançantes: “aqui, morto, não ficarei”.

 

 

 

 

 

 

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