Corre-se sempre o risco de fazer do mal um fetiche: torná-lo o assunto primeiro dos nossos dias, devotar grande tempo à resistência de suas investidas, atabalhoar a vida interior pela atenção teimosa às suas vis seduções. Como acontece a todas as realidades humanamente tocadas, o mal também pede comedimento: não na oposição que lhe fazemos, mas no modo febril com que muitas vezes, por negá-lo, o neurotizamos. O combate, como travado por Perseu na sua vitória sobre Medusa, nunca deve se dar no campo aberto e frontal: vencer o mal requer estratégia e proteção, e por isto nenhum de nós deveria encará-lo insistentemente sem um escudo que nos salvaguarde de seu poder.

Em termos práticos, gastar a maior parte do meu dia alertando sobre a ação maligna no mundo, exige uma alma preparada; um tipo de ciência da vida que dá ao combatente, antes de tudo, uma esperança inabalável na primazia do bem. A linha entre a resistência e o ressentimento é tênue, e  o que muitos não percebem é que atravessa-se para o terreno do desconsolo com mais frequência do que se imagina. Tanto horror perante os céus, para aludir a Castro Alves, é capaz de nos comprimir o coração de tal forma que, por descompasso de nossa virtude beligerante, nos arrasta para o umbral da desilusão, tornando-nos homens e mulheres desconfiados da graça que cumula o mundo de bênçãos e o plenifica de sentido mesmo aquando da mortalha que reveste a podridão.

É certo que o noticiário, as redes sociais e a arte contemporânea, são pródigos em exemplos de maldade; em lançar ao nosso espírito as mais trágicas e deprimentes histórias de crueldade, perversão e ódio. Temos de absorvê-las de alguma maneira e dar a todo este volume de infernais um destino que não comprometa o coração, nem o deprima diante do altar negro daquele que tudo separa. Enquanto modernos, abafados pela miríade de “acontecimentos” que clamam oração, devemos cuidar das lentes que usamos para tudo ver, evitando a tentação do fetiche que levará – como a tantos tem levado – ao desespero.

Os que não creem no sentido último de toda a vida, na metafísica em que se configura o gerundismo do ir vivendo, são mais suscetíveis à desesperança. Mas os homens de fé não excluem, pela profissão do credo, o perigo do ressentimento: correm o grande risco de acreditar mais no diabo do que em Deus, deitando fora os autos da prudência.

Só nesta semana, li que um pai e uma mãe deixaram o próprio filho, de onze anos, na cela com um criminoso sexual; que crianças devem participar de exposições de nudez para não serem preconceituosas; que governantes ameaçam destruir povos inteiros; que o número de cristãos perseguidos e mortos aumenta, assim como a porcentagem de mulheres islâmicas mutiladas em suas genitálias. Assomam horrores por toda a terra.

Daí a necessidade de nos instalarmos na rocha de nossas certezas: o bem prevalece, supera toda a desilusão e tristeza, e sua presença é refletida nos incontáveis traços dispostos milagrosamente pelo mundo. A grande arte, a melhor das filosofias, o amor do próximo, o silêncio dos benfeitores, os exemplos dos inocentes, dos humildes, dos que choram e ainda glorificam: é disto, mais do que qualquer outra coisa, que é feita esta casa onde moramos. Mais: é desta ofensiva e resiliente postura perante a vida que é feita nossa humanidade.

É preciso, talvez agora mais do que antes, abraçar com fervor os milagres deixados no tempo pela ação da eternidade. O amor cultivado pelo que de melhor fizemos e fazemos, a gratidão sempre nos lábios pela origem e destino de herdeiros que somos. O fetiche do mal desfaz-se em pó quando erige-se dentro de nós, pela escolhas livres e a atenção modulada, uma arquitetura maior do que a profundidade do abismo.

 

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