PREÂMBULO DE ESCLARECIMENTO

As cenas aqui narradas são fictícias. Qualquer semelhança com a realidade não é mais do que uma irônica coincidência.

Nosso narrador é oculto, estava e não estava no ambiente dos fatos; participara atentamente sem que palavra alguma dissesse. Seu relato é preciso, bem feito, de quem olha com interesse os fenômenos humanos que vão do louvável ao ridículo. Sua história apareceu em meu computador sem maior explicação, entre uma conferida e outra das redes sociais, fofocas mais quentes e imagens mais perturbadoras. Em posse do enredo, transcrevo-o tal como se me revelou.

O BAILE

Era uma sexta-feira chuvosa e os convidados protegiam os cabelos ao descer de seus carros. As mulheres usavam suas bolsas, os homens seus casacos. A intempérie climática não era bem-vinda, e não houve personalidade que não tenha condenado a intromissão do céu na hora da festa.

E que no fundo era um baile, com música ao vivo, pista de dança e gente bonita demais para ter dor de barriga. Eram apresentadores de tv, jornalistas internacionais, artistas bem pagos, filhos de celebridades de outrora. Estranhamente, só havia um padre. Reconhecido por todos, era comumente adorado pelo jeito doce de falar num deus humano, tão diferente do Senhor dos raios e justiças de um imagético antigo testamento. Era o sacerdote das estrelas, presente em listas concorridas, programas midiáticos de grande audiência, assento cativo em qualquer primeira ou vip classe.

Daí que toda a gente olhava com curiosa e intermitente atenção o homem que pronunciava o nome de Deus com a mesma empatia que dava entrevistas. Era o único exemplar religioso entre os novos pagãos, o ordenado sem batina que podiam chamar de seu. Nosso narrador conta que, na mesma festa da noite chuvosa, acompanhou de uma segura distância o serviço missionário do vocacionado, que deu conselhos a jovens ansiosos pela novela que estreariam,  evangelizou com moderna hermenêutica as esposas de futebolistas, abençoou com precisa retórica a maestria de santos e oxuns, patriarcas e carnavalescos, Puccinis redivivos e cantores sertanejos. A mesma oculta testemunha disse textualmente que o homem de fé era admirável em sua observância dos mandamentos tanto de Moisés quanto da Esfinge.

Por isso andava pelo salão como uma unanimidade. Ia de turma em turma participar de uma conversa, tirar algumas fotos, contar piadas sobre freiras e padres do velho modelo. Sempre arrancava aplausos contidos e sorrisos marotos dos seus fiéis de ocasião. Como não ofendia, não acusava, não impunha, era batizado de querido, fofo, iluminado!, pelas almas de credo vacilante porque adaptável.

Foi numa dessas reuniões de pessoas importantes num canto do baile, já a madrugada avançada e os ânimos alterados, que nosso narrador ouviu todo um diálogo entre o padre e seus interlocutores. Sentados em um sofá circular, à volta de um pequena mesa preta com bebidas de coragem, papearam:

–  Padre, muito obrigada por aquela linda oração que você fez no seu Instragram. Nossa, fiquei toda arrepiada quando assisti. Mandei para um monte de amigas, disse a bailarina de um programa dominical.

– Fico muito contente em saber disso. Você sabe que gravei o vídeo porque me chocaram certas crueldades que vi no facebook, certos ataques gratuitos que muita gente que eu considerava boa acabou fazendo àquele político de Brasília. Tive que me posicionar e, como sacerdote, apascentar as ovelhas. E maior foi a minha alegria de ver tia Jojô, do mesmo terreiro de Carlinhos, participar e comungar comigo.

– Padre vai à festa de Luciano?, irrompeu em pergunta uma loura atriz.

– Claro que sim. Luciano é das pessoas mais queridas que eu conheço e devo a ele a abertura de muitas portas por onde entrei. 

– Mas é verdade que o senhor, quer dizer, você, vai ter um quadro no programa da Nanda?

– Isso já não sei. A ideia era entrevistar gente que faz o bem, contar suas histórias para que mais pessoas sejam cativadas pelos modelos de santidade humana que existem por aí, nesse Brasil gigante que não cabe no nosso peito.

Depois de um gole, o jogador profissional do grupo pergunta, interessado:

– Padre, dá para batizar animais? Eu tenho uma york que amo muito, praticamente uma filha. Eu queria que ela se sentisse da família mesmo, sabe? Queria saber se você iria lá em casa um dia, pra um churrasco, e faria isso por mim. E por ela.

Olha, o batizado pode ser interpretado como nosso desejo de ir para um lugar melhor quando morrermos. Se você deseja isso para seu amado cão, podemos adaptar. É esse seu amor pela bichinha que vale mais que tudo.

– Gente, tem padre mais fofo? – disse a bailarina.

O religioso fez-se de tímido, sorrindo com o canto da boca para indicar humildade.

– Padre, nem preciso falar que o meu casamento é você quem vai fazer né? Eu nem ia casar na Igreja, porque você sabe que eu e o Tony não acreditamos muito nisso, apesar de eu ser super esperançosa numa força do universo. Mas minha mãe ficaria muito feliz se a gente fizesse a cerimônia e você falasse essas coisas bonitas para todo mundo.

Seria muita energia positiva, acrescentou solenemente o jogador.

 – Claro que eu faço. Será uma honra para mim. 

Nosso narrador disse que a conversa, a partir desse ponto, caminhou por menores trivialidades, como estilos preferidos de música, casais recentemente separados e um comentário geral sobre o bom gosto do sacerdote na escolha das próprias camisas.

Surgiam os primeiros raios da manhã quando o homem de fé chegou em casa. Vivia num apartamento no centro muito bem decorado, em companhia apenas da jovem responsável pela sua agenda. Nessa alvorecer de sábado de que temos notícia e testemunho, o padre entrou no seu quarto ainda cheio de impressões e sentimentos de uma noite tão agradável. Ouvia seu coração bater em compasso com aquela boa atmosfera de que sabia gostar tanto. Mais do que a solidão que suportava pela vida escolhida, arriscava dizer.

E era tal sua euforia, seu contentamento e fome de partilha, que lhe ocorreu a grande ideia de contar tudo em dois novos snapchats. Pulou na cama e sacou o celular do bolso à procura do melhor efeito.

Quando finalmente publicou estava tão cansado que esqueceu-se de rezar. Suspeita nosso narrador que no dia seguinte a falta serviu de inspiração para novos versos.

 

 

 

 

 

 

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