Presenciava, naquela manhã de maio, meu primeiro filho tateando o seio da mãe. Lembro-me de ter chorado, não um choro intenso e catártico, mas algumas lágrimas sinceras e silenciosas que emergiam à medida que a criança conseguia sugar a vida.

Julguei aquilo que vivia como verdadeira emoção.

Não se tratava de um sentimento, mas de uma alteração no modo em que eu me fazia presente à cena; o fato impelia-me a estar daquele jeito, experimentando uma espécie de conformação e identificação com o que se me manifestava. Paradoxalmente, eu era um elemento da cena – algo como coparticipante – e ainda assim distinto, cônscio de minha subjetividade.

Recordo-me de não me ver assaltado interiormente mas simplesmente alterado em decorrência de uma disposição e atenção minhas. Eu sabia que aquele estado conduzia-me para fora, vertia-me para o que eu estava testemunhando. No mais das vezes, ao que me parece, a verdadeira emoção tem este sinal: dirige o indivíduo para além de si – mais próximo do objeto que a causa e justifica.

Estar emocionado é estar vivo, na mais ampla, profunda e séria acepção que viver possa ter. É uma “baliza do sangue”, se me permite cunhar uma expressão inspirada em D. H. Lawrence. É sempre um tipo de convite feito ao eu contra a indistinção e aviltamento. Sobrepõe-se aos sentimentos no sentido de ser mais que uma movimentação psíquica: é uma atividade resultante de uma decisão anterior, inspiradora de uma passividade fecunda.

Nossa capacidade de emoção – ou seja, de movimento de alma – é nossa abertura para o mundo: estamos dispostos à alteração, ao encontro e à adaptação segundo a nossa sensibilidade. Homens e mulheres mortos andam por aí, encerrados em si mesmos e incapazes de ir em direção à realidade que os obriga a sair de si. Vivos emocionam-se verdadeiramente com tudo que é verdadeiro.

Xavier Zubiri a isso chamou reciprocidade do real. O vivo “fala” do vivo; o belo “fala” do belo; o verdadeiro “fala” do verdadeiro. E a emoção nada mais é do que um reconhecimento.

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