O rosto humano é onde a pessoa está vindo. O movimento interior, a tensão vital e sua direção: está tudo sendo dito no rosto, espécie de símbolo dramático, alterado dia após dia segundo uma força de realização pessoal. Cada um de nós está querendo algo, buscando algo, movimentando-nos em algum sentido por algo. E todas as trajetórias – das mais conscientes às menos conscientes – estão impedidas de segredo justamente por ser o rosto uma porta para a identidade que se abre a quem saiba bater. Não que o rosto seja um quadro de informações biográficas ao alcance de qualquer olhar inquiridor. Na verdade, ele contém a marca do mistério característico de todo ser criado. Mas é a mais perfeita expressão da individualidade, pois ninguém é confundido estando com o rosto descoberto.

Nem mesmo os deficientes visuais escapam à imperiosidade do rosto: se não os enxergam, têm de tocá-los. Ao passar os dedos pela face do outro, corroboram a impressão de quem está junto deles. A voz, os gestos e o modo de andar são também reveladores de alguém; mas nada ressuma uma presença como o rosto – e ninguém pode se dizer íntimo de outro sem que tenha testemunhado esta forma radicalmente pessoal de presença.

Isto me faz lembrar um conto de D. H. Lawrence chamado O Cego. A narrativa se passa na Inglaterra pós-guerra e o personagem principal é um sobrevivente que perdeu a visão em combate. Sua mulher promove um encontro com um homenzinho desprezível – a quem ela chama de amigo – em sua casa. O visitante é o protótipo perfeito do homem moderno (burocrático, antisséptico e chato). Não querendo estragar sua experiência com a leitura do conto, adianto que a cena final, entre o cego e o amigo da esposa, é uma expressão estética do que estou falando também. Tem rosto, toque, intimidade.

Aliás, falando em intimidade, é de se considerar o fato de que apenas os seres humanos podem fazer sexo olhando-se no rosto. A consciência disto já serviria para restituir o valor, beleza e dignidade do sexo para nós, homens e mulheres. Nós não copulamos; e o homem moderno faz isto como quem procura ansiosamente por verdadeira intimidade.

Em resumo, no rosto estamos sempre chegando, com toda a nossa pretensão de ser, nossos projetos, ilusões e escolhas. Se agregamos informações externas demais – muita maquiagem, muito artificialismo – não só impedimos que o outro nos acesse, como nublamos para nós mesmos nossa identidade. O rosto humano é como uma fotografia da alma, uma superfície que convida ao mergulho do nós.

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar os seguintes marcadores e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>