Qual de nós ficaria em dúvida tendo de escolher entre o Céu e o inferno? Entre o júbilo e o fracasso completo? Ou entre o amor e o ódio?

Assim, conscientemente, ninguém teria grandes dificuldades para optar entre o bem e o mal. Estando estas realidades em  sua máxima clareza e sem qualquer vício de ilusão, nossa pretensão natural é sempre pelo melhor: é isto o que idealmente consideramos o destino humano – a concretização de uma espécie de plenitude prometida.

Entretanto, quantas são as circunstâncias nas quais escolhemos entre o belo e o feio, quer dizer, entre a Catedral de Chartres e o funk das poderosas? A vida, existencialmente, não é tão simples como descrita idealmente: nossas trajetórias são vividas entre os extremos, num lugar a que chamamos de mundo. E este mundo não é o mesmo, homogêneo; é meu mundo, único, vivido desde a minha radical experiência do estar.

O drama a que pessoalmente todos nós estamos submetidos parte desta inegável constatação: no cotidiano, no lugar onde tudo acontece por nossa ação ou mesmo sem nosso consentimento, nossas escolhas estão entre o que nos parece ser mais bonito, mais verdadeiro, mais correto. Aquela certeza absoluta da realidade a que estamos aderindo ou aceitando com o caminho que decidimos percorrer não é um gozo permitido neste mundo – é coisa do Céu, ou do “mundo das ideias” platônico. Lá, acreditamos, nenhum véu nublará nosso conhecimento e estaremos diante de tudo que é.

Mas estamos aqui, tropeçando – como diria Ortega – no mundo: com as coisas, pessoas, crenças. Cada decisão não é um simples “sim” ou “não”, mas uma aposta, um depósito de tempo que precisamos justificar diante de nós mesmos e toda a trajetória percorrida até então. Escolhemos – uma pessoa para amar, uma profissão para seguir, um país para morar – e torcemos para que aquela exata escolha tenha sido a melhor: ou seja, a que nos aproximará, no plano da existência, da plenitude pretendida.

Quanto mais complexa a realidade a que somos obrigados escolher, mais difícil enxergar a clareza do sim ou do não. Uma coisa é saber se vou almoçar agora ou depois, avaliando o tamanho da minha fome no momento. Outra é aderir a um projeto de vida, tomar outro rumo biográfico, suspender uma trajetória. Em poucas palavras, a vida humana – aquela que se diferencia substancialmente da animal – raramente se desenvolve nas extremidades (a verdade ou a mentira, a beleza ou a feiura):  é um acontecer de verossimilhança, possibilidades e algumas (muito poucas) certezas.

Nossos ombros precisam suportar esta zona insegura onde, no nosso mundo, quase tudo parece se dar. E toda escolha – que gera sempre um tipo de sacrifício biográfico, um caminho que não foi tomado – sustenta-se apenas se justificada diante do argumento biográfico a que precisamos conhecer intimamente, ainda que sem a ciência dos detalhes. A felicidade é uma resultante, já escrevi: é sentida quando percebemos que no conjunto da obra fomos fiéis a nós mesmos e por isso, e considerados todos os desvios e tropeços, podemos provar algo da plenitude, antecipar por analogia a vida desprovida de limites e dores, renúncias e confusão.

É nesse lugar onde a vida acontece – e nele os fracos não têm vez.

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