O SONHO

Na noite passada sonhei com o Olavo de Carvalho. Estávamos nalgum bar, sentados à mesa num canto onde víamos todas as pessoas sem que elas nos vissem. Não consigo lembrar de outros detalhes além destes: eu o aguardava ansioso porque tinha em mente um pedido de conselho. Quando logo se sentou à minha frente, com expressão grave, cigarro à mão e mudo como se me pedisse um motivo, disse-lhe sem rodeios:

Quero ser escritor.

Sem alterar minimamente seu estado de chegada, contentou-se em falar que isto exigiria muito de mim. Em algum idioma indecifrável – num discurso entrecortado por imagens várias que assaltavam-me a atenção – é provável que tenha oferecido-me alguns conselhos, tal como eu desejava.

Despertei antes do nascer do Sol, percebi se tratar de um sonho e pouco depois voltei a dormir.

Daí este texto.

ALGUM SIGNIFICADO

É bem possível que meu subconsciente tenha operado de forma a revelar, em tom de confirmação e com os conteúdos ao alcance, algo da minha pretensa vocação de escritor, pois tenho nisto pensado há meses, experimentado versões de crônicas, contos e ensaios com uma quase obsessão pelo encadeamento das palavras – som e ritmo, símbolos, imagens resultados, etc. E também é bem possível que, ao fazer emergir o sussurro intencional, tenha o mesmo subconsciente tomado a figura do Olavo, presente no fundo das minhas memórias e símbolo pessoalmente biográfico de um tipo de metanoia que julgo ter vivido, como representação dessa voz algures consciente daquilo que de certa maneira nasci para ser.

O Olavo onírico a que dei espaço na arquitetura do meu edifício mnemônico – não o real a que tantos podem ter acesso e conhecer em suas complexidades – é um homem com o peso do mundo sobre as costas e a intransigência característica dos sábios que habitam de modo intermitente a terra natal da verdade (e precisamente sobre ela não fazem concessões).

DE COMO TUDO – ANTES E PRIMEIRO – RESSUMOU

Eu era um rapaz universitário (futuro bacharel em Direito) e assíduo frequentador da Igreja e de grupos jovens católicos. Foi numa destas minhas instalações existenciais provisórias, numa espécie de comunidade religiosa onde conheci alguns de meus melhores amigos e minha esposa, que pela primeira vez ouvi falar de Olavo de Carvalho. Lembro-me que o texto O Abandono dos Ideais chegou-me às mãos por intermédio de um velho conhecido que fez todas as insistências possíveis para que meu coração progressista (leitor de Leonardo Boff e tutti quanti) e minha inteligência embotada se prestassem ao ofício de sua leitura. Levei dias para concluir aquelas poucas páginas, não sem algum desdém e falsa sensação de superioridade.

Mas o fato era que os outros membros da famigerada comunidade – o adjetivo escolhido se deve ao já conhecido poder falsificador e neurotizante das vidas imberbes com o qual grande parte desses agrupamentos “cristãos” pode ser categorizada – se mostravam cada vez mais sensíveis a tudo o que vinha do Olavo de Carvalho. Foi compreensível, portanto, quando a maioria de nós decidiu por abandonar aquele tipo de convivência e seguir caminhos diferentes de vida. O meu adquiriu contornos de um mergulho: efetivamente saltei para dentro da filosofia como aquele processo de unidade da consciência na unidade do conhecimento e vice-versa. Li absolutamente tudo o que encontrei do Olavo – quantas foram as horas de expediente de trabalho em que arranjei formas de concluir textos e mais textos, e quantas foram as madrugadas passadas inteiras na companhia de gravações de aulas e cursos sobre Teoria do Estado, Literatura, Reflexão em Louis Lavelle, Método da Confissão, Fundamentos da Psicologia, etc. Junte-se a isso as suas apostilas (frutos das transcrições de alunos de São Paulo, Curitiba, Rio…) sobre alquimia, astrologia, kantismo, psicologismo e a filosofia de Edmund Husserl, entre outros temas com centenas de páginas. Sentava-me numa cadeira branca de um canto alemão que tinha em meu apartamento de um quarto que ficava na rua Desembargador Westphalen – em frente ao CEFET/PR – e fazia minhas anotações de tudo que lia e ouvia (ao longo das mudanças de casa que fiz nos últimos anos perdi alguns desses cadernos que foram testemunhas do meu interesse frenético e impulsivo pelo Olavo e sua perspectiva de Titus Burckhardt, de Agostinho, de Platão e Zubiri, da história moderna e do romantismo alemão).

Entre 2006 e 2010 não me dediquei a outros estudos que não os que tivessem alguma intimidade com a obra de Olavo de Carvalho, e por isso a imagem do mergulho traduz, de alguma maneira, minha circunstância naqueles anos em que submergi pela porta ao revés do jardim das aflições.

PRESENÇA TOTAL

Em fevereiro de 2009 decidi ir aos Estados Unidos conhecer pessoalmente o Olavo de Carvalho. Eu e minha mulher estávamos passando por uma delicada situação – mudança para um apartamento maior justamente quando fomos surpreendidos por um aborto espontâneo na décima semana daquela primeira gestação – e recebemos visita de duas amigas. Uma delas foi quem me avisou do curso sobre Filosofia Política em Eric Voegelin que o Olavo daria em maio do mesmo ano. Não hesitei e, com ajuda de mais amigos, fui à Virgínia sozinho.

Não havia me dado conta, até aquela segunda-feira da primeira aula, numa sala de hotel em Colonial Heights, que toda a minha percepção visual do Olavo estava reduzida à sua metade do corpo exposta quando sentado à mesa. Talvez por isso tê-lo visto de pé, caminhando entre os alunos até o lugar de onde falaria, tenha sido meu espanto inicial – o que intensificava minha percepção de sua presença, que naqueles instantes se manifestou como a de um homem comum às portas da velhice. Mas toda e qualquer vulgaridade se desfez quando ele outra vez se sentou para proferir a aula, atualizando para mim, a olhos nus, aquele aspecto a que por anos virtualmente assisti.

Os seis dias de duração do curso – e da convivência entre alunos e familiares do Olavo – deixaram-me impressões para toda a vida, tanto sobre o professor quanto sobre seus ouvintes. Mas isto é coisa que transcende os limites e objetivo deste texto.

A CASA DE MOSAICOS

Quando voltei para Curitiba, já estava em gérmen a ideia de um instituto com o nome do Olavo. A casa foi aberta em 2010 e lembro-me bem do estado de euforia que dominava a quase todos que ali arrumavam seus livros, tocavam seus pianos, guardavam seus talheres e louça, penduravam quadros, riam nos corredores. Foram pelo menos três anos de grupos de estudos literários, históricos, filosóficos, etc. Segundas, quartas, quintas e sextas reunidos, e todas as atividades pensadas desde a obra e pensamento de Olavo de Carvalho.

O instituto foi fechado poucos anos depois, e eu, um de seus “fundadores”, com altos e baixos mantive-me fiel à proposta até seu último dia de funcionamento. Guardo da intensa convivência e das experiências vividas o mosaico que tudo aquilo resultou significar, pela junção de peças coloridas a que a maioria dos olhos cansou de ver tão logo o frenesi pela sua exuberância passara.

Não sou um dos náufragos, porque não sobrevivi a nenhuma tragédia. Sou apenas um dos que esteve e agora está aqui.

A HORDA QUE NINGUÉM DÉTE

Coincidência ou não, à medida em que arrefeciam as cinzas do Instituto, deflagrava um novo processo de massa (ironia das ironias) nas redes sociais; seus elementos se autointitulavam olavetes, e seu modo coletivo de ação não diferia muito das outras matilhas a que já testemunhamos aqui e acolá. Policiamento de opiniões, de “postagens”, de amizades (“não acredito que tenho 236 amigos em comum com esse cara”); régua de aferição de fidelidade ao professor, exclusão dos dissidentes, ocultação dos cadáveres (mortos apenas para eles, diga-se de passagem). Rinhas políticas, baixarias públicas e – a mais sintomática e paradoxal das suas expressões – desconhecimento das bases elementares da filosofia do próprio Olavo de Carvalho (uma ignorância abjeta em alguns casos).

Estive presente no primeiro encontro de alunos do COF (Curso Online de Filosofia) em Curitiba, como palestrante, e estarei em breve no segundo congresso europeu de estudantes do Seminário de Filosofia do Olavo, também como palestrante e se não tiver meu convite cancelado depois deste texto. O que quero dizer com isso? Que eu realmente admiro o trabalho do Olavo e sou imensamente grato por tudo o que aprendi e pelas “janelas” intelectuais que me abriu (só assim pude conhecer a Escola de Madri e provar todas as suas consequências na minha vida, por exemplo). E por respeitá-lo, não me junto à torcida nem compartilho desse espaço público de culto histérico. O que Olavo de Carvalho já escreveu e gravou deveria servir para nossa própria vergonha e como instrumento de nossas próprias conquistas. Por isso faço questão de dar a ele o que é dele, e nenhum dos meus textos ou vídeos foge às regras da devida citação ou da devida gratidão. Qualquer coisa que algum de seus mais impulsivos seguidores ou ele mesmo venha a dizer contra mim nada mudará na minha postura: seguirei a mesma trajetória neste sentido.

Trajetória que me faz celebrar o surgimento de um documentário ou o sucesso de venda de um livro como o Mínimo.

DO SONHO PARA A REALIDADE

Por julgar conhecer pontos essenciais da filosofia de Olavo de Carvalho é que instalo-me nessa posição de quem não abre mão de dizer as coisas tal como as enxerga; de jamais ocultar de si mesmo os conteúdos da consciência; de não se furtar aos sacrifícios diários de uma vida de estudos livremente escolhida e vivida – sem amparos burocráticos, sem a proteção do Estado, sem os afagos dos colegas. Quem acompanha minha breve história como professor e escritor sabe que sou mesmo do tipo “intelectual clandestino” a que se referia Julián Marias, pagando um alto preço pela minha condição – às vezes solitária – de aspirante a filósofo.

Tenho pelo Brasil um amor sincero, e tal como Ortega y Gasset digo que meu país “dói-me”. Por isto lamento, ao mesmo tempo que espero por novos dias, o destino a que submetemos pensadores como Gilberto Freyre, José Bonifácio, Paulo Mercadante, Viana Moog e, quem sabe a um mesmo obscuro e olvidado destino, Olavo de Carvalho, o que só comprovaria com mais veemência o que está formulado em O futuro do pensamento brasileiro. Afinal, deitamos ou não por terra todos os nossos colossos?

O que faço contra essa marcha do esquecimento que nos acomete desde os genes, nos limites da minha ação, é reafirmar, pela confissão, as linhas do horizonte a que Olavo me convidou olhar, numa contínua transição de um estado de sonambulismo existencial para uma vigília intermitente. Desta nova instalação, uma espécie de retorno aos sonhos – os mistérios insondáveis do Ser – a que intimamente alcançamos toda vez que o eu substancial não é sacrificado no altar farsesco do eu social; em outras palavras, sempre que a fidelidade radical é a si mesmo e não aos delírios da turma, caralho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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