Ainda quero escrever uma história em que um rapaz conhece uma garota. Isto e mais nada: dois jovens, a boa e velha paixão, algumas dificuldades, e finalmente a felicidade dos amantes. Tenho para mim que será um romance difícil de ser escrito e, talvez por esta razão, mantenha-o como possibilidade futura – dentre as ilusórias imagens de realização artística que cultivo sobre o amanhã; e sobre o depois de amanhã.

Alguém já disse que a coisa mais extraordinária é um homem ordinário, uma família ordinária, um fato tão ordinário quanto esbarrar numa mulher bonita ao andar pela rua. Daí que seja mesmo um desafio interessante este de manter os olhos abertos diante do que se acredita prosaico ou elementar: com admirável disposição, voltar-se para um acontecimento banal a ponto de vivificá-lo, tal como procedem os grandes escritores com os menores eventos da vida humana, num ato que só se compara ao de Deus Criador – à medida que apresenta aos outros homens as coisas como se inauditas.

Digamos que eu seja um escritor: onde está o homem? Aquele que vê a mulher passar, que se apaixona, que sente como se fosse o último da terra a sofrer por amor, que faz planos, que se frustra, que é recusado como amante, que então odeia (um ódio inflamado de ressentimento por ter sido preterido). O mesmo que mata o amor mal nascido, distrai-se no meio de outras coxas e, num dia seguinte de primavera, se apaixona e é correspondido. Esse homem, diz-me o escritor que mal sou, está escondido.

Debaixo de alguns escombros da marcha da história, ele agoniza. Supõe-se que por isto ele grite – para o pai que não lhe deu carinho, para a professora que lhe tolheu a percepção, para o mundo que fez pouco caso de seus dotes. Ele espera que seu esperneio resulte num pedido de desculpas pelas ofensas sofridas ou na conta paga do psicanalista. Nem mesmo se Helena sentasse em seu colo ele a sentiria; é mais forte a sua agonia mental. Pobre homenzinho, calcula o demônio interior: conte para as gentes quão difícil foi respirar até aqui.

A despeito disso, luzes e cores, pirotecnia e feitiços, são apresentados à parte do homem que é permitida existir sobre os entulhos da destruição passada. Sua cabecinha está plantada nesse solo revolto, como se fosse uma cebola a meia luz: só as folhas da suas ideias balançam, para lá e para cá, sob os efeitos de um vento que não lhe arranca do chão. O tempo da colheita chega e, para seu azar, são máquinas pesadas as que lançam o seu bulbo com a de tantos outros, brutalmente. Assim como são raros os homens, quase não há agricultores.

Calado por esta e tantas outras cenas, o escritor que eu sou desafia-me em silêncio – onde está o homem? –, enquanto tento arrancar-me do chão. Ouço o ruído dos tratores se aproximando e vejo os rapazes colhidos antes do tempo, antes mesmo de se apaixonarem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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