Lula está morrendo de câncer. Dilma teve um surto psicótico. Os militares preparam um golpe. A Globo rouba do Criança Esperança. O Papa é um agente comunista infiltrado. Tem um lobisomem em Matinhos, PR. Obama é o anticristo. Roberto Marinho está vivo e passa bem.

Todas essas notícias e argumentações estão por aí, nas redes sociais (li mais de uma vez cada uma delas). O que as une é o fato de surgirem do buraco negro da internet (aquela zona do mundo virtual do qual não temos o menor domínio, nem de fontes, nem de variantes e consequências). Têm tanto valor quanto o que eu opino sobre moda ou economia.

Porém, a intuição de que estas estranhas afirmações que aparecem em nossas “linhas do tempo” não são confiáveis porque, de fato, carecem de probabilidade razoável ou comprovação, não inibe alguns usuários. Há quem se empolga, aliás, com o simples fato de compartilhar aquilo que gera constrangimento, dúvida ou perplexidade, independente do juízo objetivo. Razões psicológicas para isso não faltam (vão desde a intenção desesperada de chamar a atenção até a famigerada necessidade de inventar uma vida pessoal mais interessante do que realmente é), sendo cada uma correspondente à postura irresponsável que estes mesmos usuários da internet têm.

Não se restringe à propagação de incertezas. O submundo virtual tem também sua dose de ataques e ofensas gratuitas, feitos sem qualquer preocupação com a vida alheia e/ou a veracidade do que se afirma. Os compartilhamentos, a depender do estado emotivo do sujeito, podem vir recheados de exageros caluniosos e projeções descaradas (que põem em situação lamentável quem afirma calorosamente absurdos contra outro).

De fato, a coisa tornou-se terra de ninguém e está muito cansativo fazer parte disso. Desde que criaram estas plataformas e mídias, a confusão entre realidade e virtualidade era até certo ponto esperada: o que ninguém considerava verosímil, imagino, era que ao usar estas redes muitos de nós projetassem outro mundo, existente apenas nas próprias cabeças. Num assunto em que se precisa tanto de “conexão”, quem poderia afirmar que milhões de pessoas de carne e osso não estivessem nem um pouco preocupadas com a desconexão entre o que postam e a realidade?

Vejam a fina ironia no caso das publicações sobre a Operação Lava Jato, especialmente aquilo que vimos na última sexta-feira. Foram muitos, por exemplo, que ajudaram a espalhar uma foto do ex-presidente Lula dentro do carro da Polícia Federal (sendo levado para depor). O que não perceberam, infelizmente, é que o petista coagido estava de camisa preta naquela manhã (como atestam imagens de sua saída de casa e de chegada ao Aeroporto de Congonhas), e não de branco, como aparece na suposta foto tirada por um policial (o que, aliás, estava expressamente proibido pelo juiz Sergio Moro em relação à condução de Lula).

Se a ironia não ficou clara, explico: a operação comemorada pela massa de usuários despreocupados chamava-se aletheia (algo como “verdade descoberta”). Foi de Olavo de Carvalho que ouvi, tantas vezes, que um homem de mentira não pode conhecer a verdade.

Ou seja: todos esses fatos acontecem diante dele, mas não os percebe. Tal como acontece com o Lula – que acredita realmente ser a alma mais honesta do Brasil.

  

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