(Esta é a introdução da tese de mestrado em Antropologia que apresentarei em breve, no Instituto Universitário de Lisboa. Transcrevo-a por considerá-la parte comunicante dos meus interesses intelectuais e artísticos, e por isso merecedora de registro entre minhas outras publicações neste blog – que no fundo é um testemunho do “para onde” estou olhando.)

Esta tese parte de um pressuposto que considero evidente, do qual decorre a argumentação aqui apresentada: a experiência concreta é indizível. Dito isto, a premissa maior é a de que, confessada a incomunicabilidade daquilo que alguém testemunha, faz ou sofre, resta à linguagem oferecer caminhos de aproximação entre o sujeito que experimenta e o que recebe o seu relato articulado, mediado não só pela língua e sua estrutura, como por todos os outros elementos de cultura que tornam significantes o acontecimento transmitido. É essa tensão entre o que de fato aconteceu e o que se consegue traduzir com a narrativa, que subjaz a todos os tipos de conhecimento humano partilhado. E ao longo da história, o homem teve a presciência dessa condição limitadora, reconhecendo, de diferentes maneiras, que a base da conversação era, em última instância, a fé no testemunho do outro, que poderia ou não os conduzir a um lugar comum a que anuíam como verdadeiro.

Entretanto, a revolução científica que abriu as portas para a Modernidade, gerou uma quebra nessa crença coletiva: verdadeiro passa a ser sinônimo de verificável, e o desenvolvimento das ciências naturais um seu correlato. A baliza do certo ou indubitável cartesiano é a lógica dos experimentos e processos de análise pelos quais a realidade, então fracionada entre os diversos campos da ciência, tem de suportar para ser crível. Do Organum de Aristóteles para o Organum de Francis Bacon dá-se um salto na direção do intelecto matemático, repleto de dados e estatísticas, assombrado por qualquer insinuação de incerteza, poesia e verossimilhança, que enxerga como opostos no caminho de perseguição da “verdade”.

A linguagem, especialmente a numérica, tem de ser exata. É este o novo credo, capaz de influenciar as outras áreas do conhecimento, nascidas desde o século XIX, entre as quais a Antropologia. Qualquer breve história desta disciplina atesta, sem maiores contradições, a irrupção do método etnográfico como forma de conhecer objetiva, ancorada nos relatos imparciais de seus agentes primeiros. Motivada pelo espírito da época, a ciência de Malinowski era mais um testemunho, entre muitos, da nova fé científica – aquilo que Ortega y Gasset, filósofo espanhol, irá abordaria em A rebelião das massas, criticando o tecnicismo laboratorial das primeiras décadas do século XX, forma mentis que açambarca o homem moderno e contamina quase todas as expressões da vida humana.

No primeiro capítulo desta tese, comentarei as “viragens metodológicas” que a Antropologia sofreu, justamente quando essa perspectiva moderna, cientificista, já não parecia responder a contento os dramas e tensões vividos pelo etnógrafo nos mais diversos trabalhos de campo, ou mesmo nas salas de aula e departamentos acadêmicos em que se punha a refletir a sua prática. Do objetivismo aludido acima, chegou-se aos relativismos de diferentes matizes e às consequentes proposições teóricas que marcaram as últimas décadas do século passado. “Antropologia das emoções”, por exemplo, não seria possível sem que esse reexame tivesse acontecido e as sugestões de outras abordagens recepcionadas pela comunidade científica.

Afinal, o que quer dizer Renato Rosaldo quando menciona um “desgaste das normas clássicas”? Por que se percebe, aqui e acolá, um movimento de remodelagem da Antropologia, encarnada em trabalhos atuais como o de Tim Ingold, para quem ela é, na verdade, uma filosofia viva? E como filosofia, um campo “entre campos”, transversal, multidisciplinar, muito mais marcado pelo modus operandi do que pelos limites do seu objeto – ou, na sugestão de Philippe Descola, mais propriamente um tipo de olhar sobre a vida humana.

Daí que esta filosofia viva não deva excluir, no exercício da sua produção científica, os diferentes modos de dizer a experiência – mesmo que esta seja, como já sabemos, incomunicável em sua inteireza. É desejável, neste sentido, que o antropólogo se muna das formas de comunicação que melhor traduzam o conhecimento, diminuindo o hiato com o seu leitor. É exatamente neste ponto que incluo a Literatura, abrindo o diálogo interdisciplinar proposto nesta tese: a sabedoria em narrar, pródiga entre os grandes ficcionistas da história, pode iluminar – e até mesmo modelar, como se verá adiante – as narrativas etnográficas. As estruturas literárias respeitam um tipo de “código real” que permite ao leitor a compreensão do texto e identificação com os personagens e suas aventuras. É isto que afirmam, por exemplo, Tzvetan Todorov, Northrop Frye, Hayden White, Joseph Campbell, Christopher Vogler e tantos outros cientistas humanos e críticos literários que estudaram, sob diferentes perspectivas, a correspondência natural ou não entre as estruturas narrativas e a experiência comunicada. A aplicação disso teria muitas expressões, de uma ponta à outra das ciências não naturais. Parafraseando Hayden White, deve-se relacionar uma estrutura de trama específica com um conjunto de acontecimentos históricos para dotá-los de um tipo especial de significado. Este seria o labor do historiador, por exemplo: uma espécie de operação literária, extensível, de alguma maneira, à Antropologia.

O antropólogo terá melhores condições de dizer se o seu texto não preterir as formas artísticas. O grau de “sucesso” da sua comunicação com o leitor destinatário, portanto, não depende apenas de um bom trabalho de campo e do respeito às “normas clássicas” acadêmicas: depende, também, da estrutura subjacente do dizer escolhida por ele quando dedicado à escrita etnográfica.

Por que a arte teria esse papel, mesmo em trabalhos de cunho estritamente científico? É o que podemos responder a partir da obra de Vilém Flusser, filósofo a que recorri para abordar essas e outras questões que aparecem ao longo da tese. Num artigo que escreveu para o seu curso “Les phénomènes de la communication”, proferido nos anos de 1975 e 1976, Flusser faz importantes observações sobre o que considera a necessidade da arte como possibilidade do dizer. Esclarece o autor: “o exemplo mostra do que se trata na arte. Trata-se da elaboração e da comunicação de modelos para nossas experiências concretas do mundo. Toda experiência é modelada, programada pela arte. Todos os nossos prazeres e tristezas, todas as experiências das cores, dos sons, das formas, das tessituras, dos perfumes que nós temos, todo sentimento de amor e de raiva, têm um modelo artístico. Nosso mundo é estruturado não somente pela nossa informação genética, mas também por nossa informação estética. Onde não há modelo estético, nós estamos “anestesiados” = nós não temos experiência nenhuma. Nós dependemos da arte para poder perceber o mundo” (FLUSSER, 1975).

Aliada à sua concepção de linguagem, de que trato logo no primeiro capítulo deste trabalho, a noção de arte apresentada pelo filósofo tcheco é fundamental para minha arguição: as estruturas dos textos narrativos não são apenas modelos de criação, aos quais os antropólogos poderiam recorrer vez por outra se quisessem ordenar melhor sua escrita. Vai além disso. O ponto é que sem arte não há ordem, no sentido de que não há discurso significativo sobre o mundo. A estruturas textuais correspondem, portanto, às estruturas desse mundo que primeiro os artistas dispuseram, estabelecendo, de forma dinâmica e histórica, os parâmetros do dizível e do indizível, materializando pelas suas obras o sentido humano de criação.

O antropólogo, o historiador ou o sociólogo, não podem se referir a esse mundo sem a mediação da cultura que foi desenvolvida a partir das possibilidades informadas pelos artistas. “É que se não há pintor paisagista, não há paisagem”, afirma Flusser no texto citado. E prossegue: “a arte é, portanto, na expressão de Heidegger, nosso órgão para sorver a realidade. Diríamos que a comunicação estética deve preceder toda comunicação ética e epistemológica. Pois o artista é o produtor da realidade que será julgada pelo político e pesquisada pela cientista”. Disto decorre que a escrita antropológica, mais do que simplesmente “influenciada” pela literária, é acima de tudo possível a partir dela. Num esforço de formulação e generalização, poderíamos dizer que a estrutura subjacente ao texto de O coração das trevas, de Joseph Conrad, é a que permite a apreensão, pelo leitor, de Tristes trópicos, de Lévi-Strauss.

Não se põe em causa aqui, como se verá ao longo de toda a tese, as intenções de um e outro autor, nem as diferenças evidentes entre um tipo e outro de texto. Mas apregoa-se, com todo esse cuidado, a convergência entre ambos e a relação causal, no sentido de Flusser, entre a narrativa ficcional (mítica) e a científica (lógico-racional). E não só.

Esta tese culmina, depois de um capítulo que pretende esclarecer as relações práticas entre Antropologia e Literatura (e as produções enriquecedoras da chamada etnoliteratura), com uma reflexão sobre o sentido de autoria. O mesmo pressuposto destacado no início desta introdução – de que a experiência é indizível – tem um segundo ponto correlato, desenvolvido, então, na terceira parte do trabalho, na qual figura o exemplo de Renato Rosaldo, como que a personificar aquilo que aqui se aventa e se propõe teoricamente.

Seja pela sua antropologia das emoções, seja pelo seu envolvimento pessoal e biográfico com o campo estudado, Rosaldo é um homem de carne e osso que faz etnografia e pensa-a desde a própria experiência. Seu “Cultura e Verdade” é um monumento à escrita viva, transbordante; registra e modela, com capacidade de tradução admirável, aquilo que ele mesmo chama de “novas categorias”, numa alusão ao uso da experiência pessoal como perspectiva de análise do povo ilongot.

Para além de tudo o que se sabe das relações entre linguagem e fato bruto, das mediações da arte e toda a cultura decorrente, a força do texto de Rosaldo reside majoritariamente na sua autoria – força, a meu ver, análoga à de Tchekov comentando sua viagem pela Ilha de Sacalina, ou à de Cecília Meireles ao poetizar a Inconfidência Mineira, ou à de Cervantes ao descrever as paisagens de La Mancha -: vetor existencial sincero e expressão imorredoura de alguém. O “eu” continua a ser a primeira baliza de veracidade nas artes e nas ciências, antes mesmo de toda palavra.

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar os seguintes marcadores e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>