Escrevo sob o impacto do documentário feito pela BBC com Ingmar Bergman – uma entrevista que o famoso cineasta concedeu em 2004, já com 88 anos, em sua casa na ilha de Fårö, Suécia. Entre reminiscências sobre seu passado familiar, sua trajetória como diretor e suas maiores influências na sétima arte, nos é dado conhecer um pouco da rotina do autor de Persona, Sonata de Outono etc. Logo no início do filme, Bergman revela começar seus dias com longas caminhadas, seguidas de horas de escrita e meditação – para só depois trabalhar, efetivamente, no seu estúdio caseiro. A primeira frase de impacto dita pelo cineasta dá título a este texto: “os demônios não gostam de ar fresco”.

Pressionei o botão de “pausa” assim que a li. Fiquei um tempo pensando no que ouvira, enquanto olhava para a tela do meu computador e via aquele genial octagenário compor, com a beleza da ilha onde vivia, um cenário quase idílico, algo análogo ao que percebi e senti assistindo ao programa O Belo e a Consolação gravado com o filósofo Roger Scruton em seu refúgio no interior da Inglaterra. Nos dois casos, silêncio, natureza, ordem e “ar fresco” são elementos subjacentes às narrativas de seus protagonistas, ambos aparentemente integrados no habitat que escolheram e consolados pelos modos de perfeição que lhes rodeava.

Entretanto, é preciso lembrar, a calmaria e os sopros constantes de uma realidade menos afetada pelos artificialismos dos espaços urbanos, não os tornou imunes às tensões e dificuldades inerentes à condição humana. Tanto Bergman quanto Scruton, um artista e um filósofo, demonstram claramente carregar dentro de si as questões fundamentais pelas quais todo homem maduro precisa necessariamente passar, com maior ou menor sofisticação, se quiser dar justificativas plausíveis à própria existência. Morte, convivência, destino, funções da arte e do pensamento: nada escapa aos martelos da consciência desses dois grandes homens que, às suas respectivas maneiras, retiraram-se do tumulto do mundo mas não renunciaram ao barulho da vida. Porque sim, a vida não é silêncio e cantar dos pássaros apenas: entre o alvorecer mais paradisíaco possível e a madrugada dos sonos, o camponês e o citadino têm de se haver consigo mesmo.

Assim, correr das cidades para as chácaras e aldeias não nos garante muito mais além disto: um terreno um pouco menos invadido de vozes exteriores no qual devemos primeiramente ouvir a nós mesmos. Daí que Bergman, numa de suas frases de abertura do documentário citado, saia com esta verdade universal sobre os demônios – ou seja, nosso mundo pessoal infernal, com seus apetites, neuroses e reclamações – e o espaço livre, representado pelos verdes e quase naturais caminhos pelos quais o diretor explora sua ilha.

Quem quer que tenha sofrido com os próprios pensamentos destrutivos, repetitivos e desoladores, motivados por objetos externos ou internos, reais ou fictícios, conhece a sensação de aprisionamento que eles geram. A capacidade que temos de retroalimentar o mal – no sentido de reforçá-lo por hábitos rapidamente adquiridos ao longo dos processos mentais – é bastante grande, e acaba por nos lançar, com o passar do tempo e a sua constância infernal, num ambiente fechado onde as luzes têm dificuldade para entrar. Em outras palavras, todo aquele que condena a si mesmo a um pensamento cíclico de origem falsa, cruel ou demoníaca, está como cativo; tranca-se num quarto escuro da própria casa existencial e perde, pouco a pouco, a habilidade para voltar, girar a chave da porta e enxergar o que mais há “lá fora”.

Os demônios não gostam de ar fresco pela simples razão de que amplidão contraria fechamento. A óbvia relação entre liberdade e espaço aberto serve ao nosso propósito aqui estabelecido: os apartamentos cada vez menores, as convivências sempre mais condicionadas por ares controlados a temperaturas de 24 graus, a permanência em caixas limitadoras como os elevadores, os centros comerciais, os cinemas e, em última instância, os quartos escuros a que cada um se destina com seus computadores e conexões wi-fi que desprezam necessidades outras da habitação humana no mundo, acabam reforçando as vozes demoníacas que são feitas de mesmice, nunca de transgressão criativa.

O mesmo irrompimento que fazemos para vir ao mundo, a espécie de “extrusão” do útero em que se realiza o nascimento, é uma ação que necessariamente tem de ser atualizada ao longo da vida, no sentido de constantemente nascermos para um mundo cada vez maior, com espaços cada vez menos limitadores da autopoiese a que chamamos viver. Em resumo, viver é nascer de novo e de novo, descontentes dos ares rarefeitos em que nos encontrávamos no momento anterior. É isto que pode nos mover em direção às conquistas de liberdade que se materializam no que aprendemos, no que passamos a amar para nosso proveito, nas coisas nefastas que deixamos de fazer e que nos aprisionavam.

Há, segundo acredita Bergman, uma correspondência, portanto, entre as físicas caminhadas ao ar livre e a vitória sobre as repetições dos pequenos espaços conhecidos. É símbolo do nascimento o “vir para fora”, ainda que o autoconhecimento seja um “caminhar para dentro”.

Não era meu objetivo trazer fórmulas de solução para esta tensão humana, condicional. Apenas era meu desejo dizer – a quem esteja agora mesmo cativo dos próprios pensamentos – que um primeiro passo para recuperar a liberdade perdida talvez seja abrir a janela.

 

 

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar os seguintes marcadores e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>