Poucas semanas atrás escrevi sobre as instalações existenciais: nossos meios – escolhidos – de estar no mundo. Por exemplo: dar aulas sem estar ligado a uma instituição burocrática de ensino é uma maneira de viver a vocação de professor (este é um dentre muitos modos de lecionar), e a cada livre decisão configuradora da própria vida como esta chamo instalação existencial.

Por que estou voltando a este conceito? Porque é preciso desenvolvê-lo cada vez mais. Naquilo em que escolhemos estar – biográfica e existencialmente – revelamos nossas crenças (portanto, o que efetivamente nos move ou nos mantém exatamente onde estamos). As instalações existenciais podem não ser naturais e perenes – como as estruturais, estudadas por Julián Marias e que incluem a raça e a condição sexuada, por exemplo -, mas também têm seu aspecto “irrevogável”, no sentido de serem frutos, muitas vezes, de sentenças sem possibilidade de revisão pelo eu.

Vamos aos exemplos novamente: um homem, ainda na adolescência, decide que não sofrerá por falta de dinheiro durante a vida. Então, instala-se neste modo específico de exercer seus talentos e capacidades (que é a busca, em primeiro lugar, do dinheiro que lhe traga a segurança almejada). Com quarenta ou cinquenta anos de idade, depois de um bom tempo vendo as coisas desta forma, será difícil demovê-lo: a instalação existencial que representa sua maneira de “ganhar a vida” enraíza pouco a pouco até o ponto de ser quase inalterável. Seria preciso algum tipo de tragédia (um forte chamamento da vida) ou uma percepção e decisão pessoal para que a instalação sofresse qualquer mudança.

Mudança: aí está o problema. Num geral – e não precisa ser muito vivido para isso – as pessoas não querem mudar. Aquelas instalações assumidas na infância e adolescência reverberam por toda a biografia. A maioria de nós não confessa, mas é um tipo de Medusa: petrifica tudo o que abarca com os olhos. Toda abertura e alteração é uma espécie de destruição de uma pesada construção (que não foi feita para aceitar reformas).

Não estou dizendo que somos apenas filhos de Heráclito e que tudo é sempre mudança. Ninguém irá negar as notas essenciais de cada pessoa humana – aquilo que nela é imutável e por isso reconhecido como substância (algo que é). Entretanto, quando se trata de realidade humana, esta mesma substância sofre alterações ao longo da vida e são estas mesmas alterações a que chamamos experiências. Quem não se altera, não se expande (toda experiência é um tipo de acréscimo, mesmo que pela via negativa – “jamais farei isso de novo”).

Costumo dizer em aulas e cursos que a intensidade vital está diretamente ligada a esta abertura de alma que não só permite como deseja a alteração. Está vivo quem muda. Anote isso. Guarde isso. Se existe uma característica no corpo morto é justamente a rigidez: a frieza endurece, tirando toda a mobilidade e transformação que expressa vida.

Instalações existenciais são indispensáveis para qualquer um de nós: todos assumimos alguns modos de vida desde os quais seguimos escolhendo e sendo. Entretanto, apegar-se a estes mesmos modos sem o menor interesse em revê-los de tempo em tempo é o que acredito ser temerário. Somos todos chamados ao cultivo da vida, e não o contrário.

Por isso lamento todo aluno ou amigo que encontro pelo caminho e que me diz querer mudar ao mesmo tempo em que repete, fiel e rigidamente, seus hábitos de sempre. Todo convite ao novo, por meio de uma conversa ou aula, é aceito no plano psicológico, mas não no existencial. Ali, onde o “buraco é mais fundo”, tudo continua como está. As crenças são as velhas e a abertura é superficial: mudar causa dor insuportável e exige um tipo de intensidade que num geral não se encontra. Mais do que os micos-leões ou as araras-azuis, são os homens vivos que estão em extinção.

A força pessoal vem também desta capacidade de alteração (como acontece quando amamos – pois não ama aquele que não se altera pelo amado). Por isso algumas pessoas experimentam mais, atraem mais, chamam mais para si: porque simplesmente estão vivas a ponto de suportarem, entre as circunstâncias que absorvem diariamente, a parasitagem dos que já morreram.

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