Na TV e na internet tenho visto algumas propagandas do que chamam “poliamor“. São os relacionamentos com mais de duas pessoas, podendo ser dois homens e uma mulher, duas mulheres e um homem, três homens, três mulheres etc. Segundo seus praticantes e defensores, o amor não tem limites e o afeto não deve ser coibido; se posso amar mais de uma pessoa, por que não? Qual a necessidade de encerrar o sentimento e a prática sexual dentro de um retrógrado combinado a dois, expressão singular dos conservadorismos e crenças fedorentas da humanidade imatura?

O pessoal do poliamor acredita que não há necessidade alguma. Por imaginar que nenhum dos seus defensores lerá este texto, destino o blog aos leitores habituais, a fim de esclarecer ainda mais os motivos que me levam a desconfiar – para dizer o mínimo – desses “arranjamentos amorosos” vigentes entre os participantes dos centros acadêmicos de humanas.

O amor é um dos projetos mais radicais de uma vida humana. Para usar os termos de Julián Marias, nossa espécie é definida também pela capacidade de futurição: todo homem antecipa sua vida; imagina-a, projetando com mais ou menos detalhes aquele que deseja ser e que, por condição mesma da vida, não pode sê-lo no presente. Cada um de nós pode ser compreendido como quem é, atualizado no presente, e quem quer ser, com as imagens de eu e trajetórias pretendidas.

Assim, o argumento biográfico é uma espécie de resultante dramática entre projetos idealizados e realizações concretas. Sou esta pessoa aqui, que já percorreu tais trajetórias e deseja percorrer algumas outras. Por isso, a futurição é um modo de antecipação de si, uma espécie de ensaio da própria vida. Alcançar um grande objetivo, possuir uma profissão, fazer uma viagem, servir um bom prato no jantar, amar alguém: exemplos de atividades humanas que não poderiam acontecer sem um pouco de imaginação e projeção.

Sendo um projeto, o amor tem direção: como ensina o mesmo Julián Marias em sua Antropologia Metafísica, é uma instalação humana com vetores que vão ao encontro do outro (como flechas). Assim como não existe projeto sem um “fim”, não existe amor sem destinatário. Sendo instalação radical – por ser configuradora da existência pessoal –  no amor o fim não é um fim, mas um meio. Ao me inclinar em direção a alguém, desejando amá-lo e fazê-lo meu projeto, sinto-me realizado à medida que não termino na relação constituída, mas a partir dela sou outro “a dois”, alterado verdadeiramente pela presença que agora compõe minha realidade radical. Do consentimento amoroso de duas pessoas – do consequente encontro de projetos pessoais – nasce um terceiro projeto que não é mais individual, mas duplo: não sou eu ou fulano que queremos dar certo. Somos nós. A dimensão plural se abre de forma inédita e uma parte do mundo passa a ser conhecida porque agora não vivo mais só. O nascimento de filhos é o símbolo desta “extravasão” que só é possível porque a realidade não “cabe” mais em indivíduos isolados.

Em outras palavras: amar é ir em direção a alguém e querer transformar este mesmo alguém em projeto radical. Amar verdadeiramente é ser alterado por esta projeção a ponto de não ser o mesmo sem aquela pessoa. É o que transparece em diversas entrevistas de Julián Marias quando se refere à esposa (falecida vários anos antes dele). Vi o filósofo espanhol dizer, repetidas vezes (e parafraseando-o): desde que ela morreu já não sou mais eu. Uma parte minha não está mais aqui e por isso sinto-me impedido de ser inteiro quem já fui.

Isto é amor radicalmente falando. A projeção é tão intensa que “compromete” a minha realidade. Não sou mais o mesmo, nem posso ser. A partir do nós um novo projeto nasce – o da felicidade da relação.

Creio que o poliamor é uma fuga desta radical instalação humana. Por não precisar olhar alguém direta e objetivamente, seus adeptos passam a olhar alguns ao mesmo tempo. Evadidos da direção – e da necessidade de escolher e sacrificar-se por um -, perdem-se e confundem-se entre vários olhares, numerosos como os fragmentos de eu de cada um dos envolvidos. Qual é o projeto de cada um dos três ou quatro homens e mulheres da relação poliamorosa? Para onde caminham? Qual o destino deles, não individualmente, mas enquanto corpo constituído? Ainda: se um dos envolvidos sai da relação e outra pessoa entra em seu lugar, o que isto significa? Como é possível alteração radical nestes termos?

Amar é um tipo de decisão que afeta, sempre e primeiramente, duas pessoas. É a porta da verdadeira intimidade, como diria Louis Lavelle, pois um “terceiro” sempre sobra. A experiência coletiva existe e é necessária à vida humana, mas apenas a comunhão a dois é capaz de abrir a porção da realidade tocada somente por nós, amantes de um projeto que rompe os limites do eu e verte-se numa nova realidade dinâmica e afetiva; comprometedora e consoladora.

Numa reunião do Clube do Livro deste ano, quando discutimos a obra Persuasão, de Jane Austen, escrevi sobre o amor e justifiquei, como pude, a razão de ser do encontro entre o homem e a mulher. Transcrevo uma parte daquele ensaio aqui:

“Numa relação amorosa, a oposição disjuntiva entre a mulher e o varão ― e assim desejada pela realidade, de forma estrutural ― condensa simbolicamente as duas formas de estar no mundo do ser humano, como diria Julián Marias. A mulher é aquela que enxerga longe nos desdobramentos da relação em que está os efeitos na eternidade do amor que mutuamente oferecem. Ela é como o vaso depositário das esperanças do homem, culminando na fecundação de seu útero toda a nova possibilidade característica do amor. Esterilidade é oposto ao amor. Por isso a mulher não deve aceitar posição inferior, que a desinstale deste lugar de privilégio, no qual o velho encontra o novo e a face da terra se renova.

Do mesmo modo, o homem é aquele que luta para realizar-se, exigindo de si mesmo a força necessária para fecundar a vida. É regido por um sol interior que o impele a cumprir, construir, prover no mundo, inexoravelmente masculino. Para o varão, a eternidade é uma morada atraente. A mulher, neste sentido, é o sinal sensível da eternidade que precisa ser conquistada e não perdida. É por isso que é o homem quem vai em direção à mulher, corteja-a como quem ensaia um pedido de casamento com a divindade, entrada para o Paraíso que sempre teme não ser mais seu. Que a realidade tenha feito as coisas desse modo, creio ser indiscutível. Mesmo nas relações homossexuais será necessário que os dois envolvidos exerçam papéis diferentes na hora do sexo. Portanto, a complementaridade é irrevogável. As grandes histórias de amor da literatura, como as de Jane Austen, são símbolos desta tensão existente entre os opostos que, quando felizmente vencem as descontinuidades e infidelidades, dão nascimento a um tipo de encontro ― o mais radical e frutífero entre os seres humanos.”

Este assunto, ou tema da vida humana, renderia outros textos neste blog. Prometo voltar a ele num futuro próximo. Por ora, penso ter esclarecido porque o poliamor é amor nenhum.

Ir a muitos destinos é ir a destino algum.

 

 

 

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