O tempo tem a mania de nos enganar. Tudo aquilo que está sob seu domínio parece ter a marca da repetição. De segunda a sexta, muitos de nós dizem: mais um dia de trabalho. No caminho até a faculdade, não olhamos mais para fora do carro; a mesma praça, os mesmos prédios, a mesma rotina. O domingo gera angústia porque, de novo, as coisas serão o que sempre são ao longo das semanas.

Aquela pessoa, com quem estou há dez ou trinta anos, é a mesma. E por isto não preciso olhá-la, pois nenhum mistério restou e nenhuma curiosidade persiste no homem moderno acostumado às invenções de toda ordem. É tudo uma mesmice sem fim, uma repetição infernal que faz da vida um círculo vicioso, um prato sem gosto, uma experiência sem emoção.

Há quem almoce em restaurantes por quilo todos os dias e todos os santos dias sinta o mesmo sabor. E toda a novidade de sua existência depende das férias de trinta dias que sonha realizar (dias nos quais cumprirá com as mesmices características do tempo ocioso). Sem um descanso inesquecível em Cancun ou sem um amante que faça piruetas sexuais na cama e ainda seja mais romântico que Romeu, a pessoa sucumbe. Não aguenta o peso dos dias que, ao fim e ao cabo, traduzem-se em mais do mesmo, mais do mesmo, mais do mesmo até a morte.

Por que estamos assim, sedentos de grandes emoções, fatos incríveis e realidades “especiais” que preencham os dias vazios?

Porque erramos ao permitir que o prosaísmo tomasse conta da vida. E a partir de então, todos os almoços são iguais, assim como todas as noites ao lado do esposo, da esposa ou no trabalho. Separamos a realidade em fatos comuns e especiais, e contamos nossas vidas como quem narra as quatro ou cinco vezes que divertiu-se numa montanha-russa. O resto, todos os outros dias sem parque, foram simples cumprimento de tabela. Sem lirismo algum diante dos “dias comuns”, não há Lexotan que dê conta.

Estamos inaptos para perceber o extraordinário que há no ordinário da vida. É preciso restaurar-nos: tudo que é real tem lirismo. Como criação, sempre fala d’Aquele que faz novas todas as coisas. Por isto, penetrar a aparente repetição é experimentar o mistério que se esconde sob a forma do continuísmo; é gozar, no tempo, das formas irrepetíveis da eternidade.

Rotina é uma invenção que nos fez mal. Cotidiano é uma experiência de intimidade com o mundo, que guarda seus segredos aos que superam o prosaísmo.

  1. Clara Mítia says:

    “Penetrar a aparente repetição é experimentar o mistério que se esconde sob a forma do continuísmo; é gozar, no tempo, das formas irrepetíveis da eternidade.” Bela reflexão, Professor! Grande abraço!

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