Miguel,

Começo esta carta lamentando a partida de Aurora. Sei que lá se vão três meses de sua morte; entretanto, é a primeira vez que me dirijo a você desde que soubera de sua viuvez, e por isso quero expressar meus profundos sentimentos e meus sinceros votos de que saiba viver este luto que ainda deve estar atormentando o seu espírito. Quem quer que o conheça, caro Miguel, sabe do amor que sentiu pela grande companheira vencida pela depressão.

Deve estar se perguntando se desconheço os reais motivos da morte de sua mulher. Esclareço: sei bem que a causa médica foi o câncer, que se alastrou pelo corpo todo a ponto de comprometer os órgãos vitais. Mas reitero o que disse antes e peço que acolha esta minha perspectiva de amigo: foi primeiro o mal da depressão que a tornou vulnerável, sem energia vital para seguir enfrentando os dias mais difíceis e, consequentemente, os obstáculos da doença que acabou por matá-la.

A depressão é o mal do século, diziam muitos até os anos 2000. Penso que continua sendo a expressão de um profundo desconforto dos homens e mulheres contemporâneos, aparentemente em apuros com a própria existência. Nunca foram consumidos tantos medicamentos contra esta enfermidade e os psiquiatras nunca tiveram seus consultórios tão cheios: tem-se procurado aliviar, de todas as formas possíveis, o sofrimento de quem padece desse mal. A depressão não apenas altera a química do cérebro, mas curva o espírito como se dele retirasse a aspiração de viver – sem este impulso vital, a pessoa retrai sua existência, perde o apetite das coisas, aceita os termos inferiores do jogo em que transcorre sua biografia. Inferno, lembremos, é uma maneira de dizer inferior: os depressivos podem ser encarados como aqueles que estão nalgum tipo de inferno existencial. E sua Aurora, se me permite o atrevido diagnóstico, foi uma destas mulheres que não conseguiu salvar a si mesma.

Em 2009, quando estive em Portugal por conta daquele congresso em que falei sobre As raízes noogênicas do tédio, pude visitá-lo em Espinho (recorda-se?). Naquela altura, pela primeira vez, você mencionou o estado de Aurora e o fato dela ter iniciado um tratamento com antidepressivos. Você usou palavras como desânimo, medo, letargia, cansaço, apatia, melancolia, para descrever o estado de espírito de sua mulher. Também lembro que, no seu julgamento, tudo começara em virtude da crise econômica pela qual o país passava e que era a grande responsável pelo fechamento da loja de brinquedos. Suas palavras mais marcantes foram: “já ninguém mais em Espinho terá caravelas de madeira para decorar os quartos dos miúdos”. Aquilo, além de me entristecer, me marcou pela força simbólica da frase – afinal, eu estava ouvindo de um homem português que já não haveria caravelas na cidade.

Aurora, que devotava todo o tempo do mundo àquela loja inaugurada tantos anos antes pelos seus pais, sofrera grande revés ao ter de fechar as portas e reconhecer-se falida enquanto comerciante. Bastaram poucos meses para que os primeiros sinais da depressão aparecessem; as primeiras crises, as consultas, o início do tratamento. Pelo que você mesmo me disse antes que eu voltasse para o Brasil, Aurora parecia ter sido golpeada de forma a impedir que se levantasse novamente. E eu ainda acrescentei ao seu comentário: uma mulher de cinquenta anos, sem filhos, sem outra dimensão em que se sentisse realizada, era capaz de pôr-se a perder em definitivo naquela situação.

E infelizmente foi o que aconteceu, Miguel. Você sabe melhor do que ninguém: Aurora deixou que a depressão tomasse pouco a pouco suas forças até que já não pudesse mais sair da cama pela manhã. Nada tinha sabor, tudo era mais do mesmo. Você foi um grande guerreiro e suportou como poucos os anos de tristeza e timidez vital de sua companheira. Quando em 2015 veio à tona o câncer, sua voz embargada disse-me ao telefone: Pedro, ela ainda teve o disparate de agradecer pelo mal que finalmente a levaria desta vida.

É tudo muito triste, e não retomo estes fatos gratuitamente. Sabe que não é minha intenção feri-lo ainda mais em relação ao sofrimento que passaram juntos nos últimos anos. Porém, quando decidi escrever esta carta e pensei em nossa amizade transatlântica, senti-me no dever de ser o mais sincero e duramente verdadeiro que eu poderia num momento como este – para seu próprio bem. Não ignoro seu luto, meu caro. Apenas proponho-me, como não poderia deixar de fazer enquanto amigo e filósofo, ajudá-lo a enxergar que sentido pode haver por trás desses fatos e que conhecimento podemos ter sobre nossas vidas – em que pese a gravidade de tudo o que tem passado e de quem eu acredito que você seja.

Eu admiro-o profundamente. Sinto-me honrado pela nossa amizade, pois o considero grande homem, grande literato, grande pensador, grande português. É um tipo de sujeito da mesma estirpe de Camilo Castelo Branco, Ferreira de Castro, Manuel Laranjeira: a vida também pulsa dolorosa e intensamente em suas mãos, e sua escrita é uma expressão fiel dos movimentos de alma que sucedem-se de forma quase violenta dentro de si. Um dia, espero, me dará acesso a seus secretos diários e permitirá que eu os apresente a alguma editora (aqui no Brasil ou em Portugal), a fim de que encontrem o merecido público. Sei que tem se dedicado a eles há mais de quinze anos, e consigo imaginar os grandes pensamentos e insights que aí devem estar registrados com o lirismo que é sua marca.

Talvez, agora, a arte seja mais do que amiga: tal como acontecera a Boécio, uma musa consoladora haverá de lhe fazer a visita que anseia. Consigo desenhar a cena em que você está em sua sala, em frente à lareira – e àquela cópia de The Fighting Temeraire, pela qual tem preferência dentre todas as telas de Turner – lendo algum artigo de El Espectador, de Ortega y Gasset, ou folheando poemas de Pessoa enquanto Alberto Caeiro (poemas que, sabemos, você sabe de cor). O cigarro entre os dedos da mão esquerda; os óculos baixos, quase à ponta do nariz; a mão direita a segurar o livro: a expressão mais comum de gravidade e tensão no olhar ora compenetrado na tarefa, ora distante na reflexão. É assim que o vejo, Miguel.

E por conhecer suas virtudes como homem e intelectual, sua paixão pela arte, sua invejável retidão de ser, é que me sinto um tanto estúpido ao dar-lhe qualquer conselho nesta hora. Mas, como já disse, a amizade que sentimos um pelo outro me impele a escrever e ser o mais fiel ao que percebo e penso quanto ao que aconteceu à Aurora e agora deságua na sua provável solidão e sofrimento. Por isto, e mantendo-me o mais próximo do meu objetivo de início, aproveito esta carta para falar de algo que tenho pensado nos últimos meses e, em alguma medida, ligado à história de vocês dois e de Portugal que respeito profundamente.

Se existe uma característica ímpar ao espírito do intelectual é esta: somos chamados a ver as coisas, mesmo as mais corriqueiras e pessoais, à luz da inteligência e razão, de forma a não apenas padecer dos fatos, mas também interpretá-los – para ganho próprio e de quem mais acesse nossos livros, aulas, publicações. Havendo diferenças naturais e sensíveis entre os homens – como eu e você acreditamos existir – aquilo que faz um pensador, um filósofo ou crítico, é sua capacidade de transcender a própria situação, enxergá-la desde o mais alto ponto, e num processo humilhante e criativo ao mesmo tempo, comunicar a verdade descoberta a partir do foro individual que, sendo verdade, é válida para a vida de toda gente. Neste sentido, “meu sofrimento” torna-se “nosso”, humano. E se queremos responder efetivamente ao chamado que nos foi feito enquanto intelectuais, é preciso fazer esta operação centrífuga em ascese: do núcleo de nossas vidas e subjetividades para as leis que regem os homens e sustentam o significado de toda particularidade.

Para ilustrar o meu ponto, invoco o nome de um dos grandes escritores brasileiros – de quem não estou certo que você conheça ou já tenha lido a respeito: Lima Barreto, autor de Triste fim de Policarpo Quaresma, por exemplo. Este romancista e contista do início do século XX teve uma breve carreira, com altos e baixos e pouco reconhecimento enquanto vivo. Para além de ser mulato e pobre, enfrentou outro obstáculo no Rio de Janeiro daquele tempo: era alcoólatra, vício que lhe rendeu internações forçadas no hospício da cidade.

Mas o que isso tem a ver com o papel do intelectual, de que eu falava há pouco? Lima Barreto, mesmo quando tratado como louco, renegado pela família e obrigado a se submeter a tratamentos terríveis, nunca permitiu que a consciência lhe faltasse: manteve-se alerta, como deve se manter quem tenha a escrita por vocação ou a beleza por valor. São célebres seus diários sobre o hospital em que ficava, sobre a luta pela lucidez ou a busca por algum sentido em tudo aquilo (ainda que aparentemente não o tenha encontrado, infelizmente). Mas de fato, Miguel, Lima Barreto é um exemplo do que podemos chamar consciência em alerta, dever primeiro do intelectual ou pensador, que não tem permissão para justificar, com base nas duras circunstâncias em que possa se encontrar, qualquer possível cochilo vocacional. Viktor Frankl é um modelo de excelência quando se fala em sofrer e conhecer – haja vista sua escravidão nos campos nazistas sem que houvesse perda da fidelidade a si mesmo e ao Sentido (encarado assim, como ele mesmo tantas vezes mencionou em suas obras, com S maiúsculo).

(Meu amigo, preciso confessar que neste exato momento ouço Claire de Lune enquanto digito estas linhas; perdoe-me se as notas do piano transparecerem no ritmo e sonoridade das palavras – é que sou facilmente tomado pela obra de Debussy).

Voltemos ao ponto. Dizia eu que pensadores, sejam artistas ou filósofos, são chamados a transcender suas próprias circunstâncias e a encontrar, na radicalidade de suas experiências, conclusões que sirvam a todos os homens (por analogia). Também disse que o sofrimento ou as dificuldades são matéria de conhecimento de si e da vida humana – e não podem legitimar a letargia ou mesmo a paralisia da atividade do espírito. Portanto, ao intelectual é dado mais um fardo: sua culpa advém da quase permanente constatação da desarmonia existencial frente à grandeza de seu dever-ser.

A tarefa é realmente difícil, e muitos foram aqueles que não suportaram as incongruências e tensões que fazem parte da atividade do espírito e podem ser sentidas em todo o seu peso. Se quisermos falar de Portugal, os exemplos são dignos de citação: Camilo, Eça, Manuel Laranjeira. O último, prosador invejável de mente perspicaz e produção ensaística valorosa, é uma vida a ser estudada: seu suicídio após anos de luta pessoal contra alguns dissabores portugueses e as suas noções de fé, metafísica e vida humana que demonstrou ter e defender, é modelar para o que estou tentando dizer a você desde o início desta carta.

Aliás, quando decidi escrevê-la nesta manhã, peguei da prateleira meu exemplar de Cartas publicado pela editora Relógio d’Água – obra que você me apontou naquela livraria (de nome francês e que agora não me recordo) em Lisboa – contendo uma série de correspondências de Laranjeira com Pedro Bianco, João de Barros, Ramiro Mourão e tantos outros. As mais substanciais e comoventes, no meu julgamento, são as endereçadas a Unamuno, o grande mestre da geração espanhola de 1898. E quanto pesar há nelas, meu caro Miguel! Quanta lucidez e, ao mesmo tempo, tédio existencial; ressentimento, dúvida, morte: a perspectiva de Manuel Laranjeira sobre Portugal e os portugueses, sobre a vida, a esperança e outros temas escatológicos é de fato melancólica. São os livros e as cartas recebidas dos amigos que lhe servem de consolo diante da pequenez e da dureza que julga perceber.

Posso transcrever-lhe o trecho de uma carta, para que leia e saiba por si mesmo o que estou querendo dizer: “Neste malfadado país, tudo o que é nobre, suicida-se; tudo o que é canalha, triunfa … O nosso mal é uma espécie de cansaço moral, de tédio moral, o cansaço e o tédio de todos os que se fartaram – de crer.” (Enviada a Miguel de Unamuno, a 28 de outubro de 1908).

Estas palavras – e muito mais, aquilo que revelam – fizeram-me recordar de seu amigo, Eduardo Lourenço, a quem você me apresentara naquele jantar no Porto durante o encontro internacional de professores de Filosofia (a segunda e última vez que o vi foi num pequeno evento em Lisboa, em razão de uma palestra que ele proferiu sobre Terrorismo e Crise dos Refugiados). Mas estou tergiversando. Estava a dizer que as palavras de Manuel Laranjeira fizeram-me recordar seus escritos sobre saudade. Num deles, o Prof. Eduardo Lourenço, pleno de lirismo e incrivelmente consciente do que aborda, fala da melancolia como um estado quase permanente da alma portuguesa; como se esta qualidade de revisitação do próprio passado – em que o ressentimento prevalece na tradução da memória – fosse a mais cultivada pelos lusitanos. Some-se a isto o sentimentalismo de que fala o próprio Laranjeira (“povo essencialmente sentimental”), o fado, os temas de poesia, a “criação” da saudade enquanto tema preferencial: parece-me verossímil argumentar que os portugueses são melancólico-sentimentais.

De fato, meu amigo, há alguma espécie de luto em seus olhares: por alguma razão a melancolia tornou-se lugar-comum, e a passagem dos dias uma monótona brisa que refresca, mas não chega a ser suficiente para movimentar as velas. E talvez esta ausência de grandes tempestades, de grandes venturas, de novos temores e abalos esteja causando esse clima de fim de tarde em que se olha o pôr do sol desde o Cais do Sodré, mas não se comove a ponto de atravessar as águas outra vez. Mesmo as dificuldades econômicas, os altos e baixos da política, os desencaixes em relação à comunidade europeia, são vividos como tropeços cotidianos, coisas que não valem uma verdadeira luta, uma união nacional, um mergulho ativo: os portugueses parecem estar ensimesmados em seu tédio existencial, fruto da calmaria de superfície em que se encontram – e que esconde os mais revoltosos movimentos de seu núcleo poderoso.

Que tumor social é este, Miguel, de que fala Manuel Laranjeira? Como foi que ele cresceu entre vocês, matando-os não pela metástase orgânica, mas pela aceitação do suicídio como modo de vida?

Entende, meu amigo, que possíveis correspondências podem ser feitas entre a Aurora e Laranjeira, doenças do espírito e morte existencial? Eu sei, sou um brasileiro a falar de um povo tão maduro como o seu. No meu caso, faltam livros que nos expliquem e encontrem os elementos que distingam, com maior clareza possível, a identidade nacional. É o mais dramático e até agora insolúvel problema do Brasil: saber o que é e por que é.

Não me parece ser o mesmo problema de Portugal. Não sinto, na relação com vocês, na literatura que conheço, nas notícias que chegam, na história que estudei, na convivência experimentada quando em Lisboa, Setúbal, Évora, Espinho ou Porto, que a identidade seja seu drama: é justamente por saberem quem são que estão há tanto melancólicos. A paralisia, neste caso, é fruto do ressentimento (o passado glorioso x o presente comum). Entre nós brasileiros, a falta de atividade se dá em virtude de um desconhecimento da origem e do destino, de um passado jamais possuído, oculto entre paródias e falsificações ideológicas. Pouco sabemos a nosso respeito, e o mesmo não vale para os irmãos portugueses.

Retomo a questão das doenças do espírito e sua relação – pode chamar-me de metafísico ou acusar-me de pouca ciência, mas não consigo enxergar grandes realidades sem o apelo a grandes lentes – com o tédio existencial ou o “tumor social” percebido em Portugal. Mencionei ainda no início desta carta, que ora já se mostra demasiado longa e quiçá enfadonha, meu trabalho sobre as enfermidades noogênicas (você mesmo leu alguns artigos que escrevi recentemente); em poucas e simplificadoras palavras, as doenças noogências são de origem espiritual e, por isto mesmo, afetam toda a pessoalidade – em sua dimensão individual e depois coletiva. Tomo o conceito emprestado de Viktor Frankl, que encarou a depressão, associada ao tédio existencial, como uma desordem de fundo noogênico, algo que se passa no núcleo mesmo do ser. Assim como existem doenças de origem fisiológica, estudas pela medicina convencional, existem as de causa psíquica e as de causa espiritual. Hoje não tenho dúvidas de que a corrupção brasileira, por exemplo, é deste último tipo (e não me refiro a desvios de dinheiro público, mas ao movimento de alma anterior que faz do ditado “a ocasião faz o ladrão” um enunciado provável no Brasil). E me pergunto, caro Miguel, se a melancolia dos portugueses, seu ressentimento traduzido em paralisia de vida, ausência de projetos audaciosos, movimento e conquistas de novos horizontes, não seria, também, uma enfermidade espiritual, um mal de fundo noogênico.

Sua expressão mais superficial seria justamente a depressão clínica, contida em consultórios e pelo uso de medicamentos. Você conhece os dados melhor do que eu, obviamente: Portugal é o país da Europa com taxa de depressão mais elevada (quase 10% da população). A cada oito horas, morre um português por suicídio. Um terço dos enfermos não busca tratamento; no mundo, apenas os Estados Unidos têm mais depressivos (proporcionalmente falando) do que seu país.

“Quando penso que sobre nós pesa a herança trágica, secular, duma ignorância podre e duma corrupção criminosa, o meu espírito enegrece e sinto-me adentrado dum pavor indizível, talvez absurdo. E, mais que saber se vamos para a vida ou para a morte, me preocupa saber se morreremos nobre ou miseravelmente”. Nova citação da carta de Laranjeira a Unamuno (peço desculpa pelos grifos).

Tanto a vocês, irmãos de Camões e Herculano, como a nós, estrangeiros, espantam os números acima e a visão pessimista, como a de Manuel Laranjeira. Recorro aqui ao que percebera Miguel de Unamuno sobre a sociedade portuguesa e estes mesmos temas que tentei expor com alguma ordenação nesta carta. “Portugal é um povo triste – e é-o mesmo quando sorri. A sua literatura, incluindo a sua literatura cômica e jocosa, é uma literatura triste” (afirmação que anotei em meu caderno de apontamentos; retirei-a de uma edição de “Os portugueses, um povo suicida”).

Eu não posso, como filósofo, encarar o que já podemos chamar de evidências do caráter de outra forma: há uma profunda raiz espiritual nestes males que atormentam o também corajoso, bravo e feroz povo português. E por não terem identificado corretamente a causa – ao que me consta -, talvez não tenham conseguido remediar adequadamente seu estado até agora. Os sintomas, segundo a literatura, as autobiografias, as cartas e os documentos, recrudesceram a partir do último quarto do século XIX, tendo grande expressividade ao longo do XX. E volto a dizer: não foram, pelo que se percebe hoje, investigados nestes termos, noogênicos – única perspectiva que me parece poder resultar numa “cura” ou salvação de si mesmo.

Mas como acontece a toda doença de fundo noogênico, a melancolia-sentimental que entedia e paralisa o português não terá fácil abordagem e purgação: o espírito é sanado pela luz direta que contempla. Quanto maior a luz lançada sobre si mesmo, maior a possibilidade de reconhecimento dos próprios recônditos interiores – donde se instalam as heresias, as mentiras, as falsificações de trajetória, as justificativas para o esquecimento do propósito vital. A atividade do espírito é marcada pela claridade e, sendo assim, tudo que a dificulta, avilta ou desvia é associado à escuridão e às trevas – logo, evocamos a inteligência, que também tem como símbolos a luz, o Sol, o raio de Zeus, o fogo, etc. Portanto, a todos os povos é necessária uma nesga contínua de luz, sem a qual ficam como a terra sem calor: nada cresce, tudo apodrece.

Portugueses, brasileiros, ingleses ou indianos devem ardentemente desejar esta luz que torna visível o mais obscuro elemento de suas realidades. Dependemos disso, enquanto homens e povos. Necessitamos saber o que somos, e isto inclui tocar nossas fraquezas, baixezas e vícios. Havendo abertura, o raio de luz é capaz de penetrar profundamente e projetar-se sobre todo o ambiente a que chamamos vida individual ou social. O gosto agridoce resultado dessa exposição à luz que irradia – por extensão de sentindo, a do saber sobre si – é preferível à ignorância com a qual encerra-se o subconsciente em sua condição soturna, disforme e de sentido inalcançável pelo sujeito. Em nenhuma cultura as sombras e a escuridão – portanto, o desconhecimento – são encaradas como símbolos naturais da cognição e da razão. Daí minha insistência neste ponto: que os portugueses vejam; que não lhes seja negada nenhuma lente de tomada de consciência da verdade e daquilo que lhes é oferecido como destino.

Mas Miguel, meu caro amigo, não é simples a tarefa. É preciso ressaltar a dureza do português – sobre o qual já vi você mesmo tratar em aulas e artigos publicados na imprensa estrangeira. Há uma aspereza no seu modo de ser, na forma de servir, no tratamento comum, na convivência sem lirismo. Nas palavras de Unamuno, “a brandura portuguesa está só à superfície; raspai-a e encontrareis uma violência plebeia que chegará a meter-vos medo… a brandura é uma máscara”.

Perfeitamente compreensível. O mesmo povo que construiu cidades e países em tão distantes terras, que atacou os inimigos internos e externos, que desbravou os mares e chamou a uma parte considerável do mundo de “português” não poderia ser frágil; doce, suave ou curvilíneo. É uma questão de lógica: lusitanos foram forjados para a aventura e desventura, para os trabalhos considerados impossíveis e as conquistas ditas irracionais. Quem seria capaz de fazer nascer algo como o Brasil, senão um povo de força e retidão? De alguma maneira, dureza?

Aqueles homens que entravam nas caravelas para contornar tormentosos cabos, negociar com violentos líderes tribais, iniciar uma feitoria, enfrentar feras e povos pouco amistosos, não eram plásticos, suaves como os cantos das crianças ou dóceis como os cães de raça. Era necessário que fossem fortes e rígidos, regimentais, burocráticos, uníssonos. Daí a aspereza, que ocupa a alma onde não houver grandes domínios da sensibilidade, da escala cromática das emoções e intenções.

É lá ou cá. Para vocês, é a obrigação ou o gozo. Não há intermédios: da rudeza para a divinização, ponto máximo onde o português médio cultiva a arte, vai à missa e celebra seus ritos. A religiosidade que marca sua história tem sentido dentro dessa perspectiva que reforço nesta abordagem: é um povo com abertura para a eternidade, mas sem degraus entre a brutalidade do prosaísmo e o lirismo das delícias espirituais. Entre segunda-feira e sábado, impera a força do dever e do rigor, do “ter de fazer”, “ter de cumprir”, “ter de obedecer”; e no domingo, ou no dia que reconheça como fora deste ciclo de obrigações civis e sociais, busca logo a mais alta realização, a mais sublime performance do ser que pretende e que não se imiscui na prodigalidade das leis, dos decretos e dos carimbos do notário. São mundos diferentes, avaliam.

Mas note, Miguel, que até mesmo no exercício da fé são seus compatriotas oficiosos. Nas artes, como na música, também não há meio termo: o fado é o extremo de uma corda de sentimentos e pesares, e sendo ele uma das maiores expressões do que podemos entender por canção tradicional portuguesa, ajuda-nos a perceber que a escala de notas da alma portuguesa é abrupta, de uma oitava à outra sem concessões para a delicadeza do semitom.

Miguel, penso que seja preciso o acontecimento de alguns terremotos íntimos: que esse tédio que paralisa o povo há mais de um século sofra uma espécie de abalo e seja demovido. As catástrofes, como um terremoto ou um incêndio (Lisboa e Londres, por exemplo), têm também uma função. Apesar da morte ou perda que geram e da destruição que causam, forçam o nascimento da novidade, simbolizada nas construções e reorganizações empreendidas em seguida aos fatos trágicos. No plano existencial também pode ser assim: os abalos e provocações podem vir a pôr os homens e mulheres em movimento, saindo do estado de paralisia e instalando-os numa circunstância projetiva – na qual a vida é encarada como antecipação de si mesma, trabalho poético de imaginação e consequente auto-realização.

Enfim, começo a me despedir. Ultrapassei todos os limites do aceitável para uma carta amiga de condolências. Mas o fato é que ela acabou se tornando mais do que isso, e minhas características pessoais sobressaíram ao transformar a intenção original da escrita numa espécie de apologia da reflexão – espero ser bem recebido por você, e que o “uso” que fiz da morte de Aurora não seja mal interpretado. Se estou certo, o Miguel sempre olhará para este pretenso filósofo paulista, solteiro e sem filhos, de forma compassiva e bondosa, como que procurando o melhor das minhas atitudes e palavras. Reforço os votos de que assim continue, meu caro.  

Aurora pode ter sucumbido às armadilhas da melancolia portuguesa e à consequente paralisia que tomo por doença espiritual. A depressão mostrou suas garras, limitou-lhe a ação e a coragem e tornou-a suscetível a outros males de menor grau hierárquico, como é o câncer quando comparado às enfermidades noogênicas (a hierarquia das desordens pessoais é uma alusão que faço à Homeopatia que venho estudando desde aquele livro do Vithouklas que li na viagem a Copenhague, em companhia de Assis e Saraiva, ambos seus colegas professores, um de formação literária, outro historiador profissional – oportunidade que rendeu conversas interessantíssimas sobre cultura e salvacionismo). Ainda narrarei parte desses diálogos para você, Miguel, quando nos reencontrarmos.

Quando será?

Não sei se eu irei a Portugal primeiro, ou se você virá ao Brasil visitar seus parentes (creio que seus tios ainda estejam vivos, morando em Recife, certo?). De qualquer forma, é importante que nos encontremos, que nos saudemos como bons amigos que somos; que então eu possa ouvi-lo falar mais claramente de si e da vida sem Aurora, das adaptações necessárias, dos desafios que se avolumam e de como deve estar a enfrentá-los.

Eu desejo a você o que desejo ao Portugal que considero minha segunda pátria: que os terremotos lhe tragam mais força.

 

Do amigo,

Pedro Afonso.

 

São Paulo, 13 de maio de 2017.

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