Há dois tipos de provincianismo: o de espaço e o de tempo. O primeiro faz com que o grupo ou sociedade julgue-se central geograficamente, ainda que periférico; toma sua pequena realidade espacial como um reino de começo e fim, mas sem fronteiras: nada existe para além do seu mundinho. Contra esta diminuta visão, viagens, livros, comércio, diálogo, estrangeirismo – todo tipo de ação que o faça transbordar, rompendo os limites do que julgava concebível.

Mas há outra maneira de ser provinciano, e nesta o recorte mediano é temporal: nem o passado, nem o futuro, têm grandes lastros. Memória e projeção são concessões tímidas de uma dança existencial que permite apenas um passo para cá e outro para lá. Numa situação de provincianismo de tempo, século é uma irrealidade, tradição um palavrão.

Isto já se tornou lugar-comum na vida contemporânea – vivemos entre provincianos que têm sérias restrições quanto à régua da história e ao arco do amanhã: evanescência é modo de existir. Nada permanece. Nada tem valor sobre o tempo e sua ação. Nada sobrevive ao martelo das horas, ao tribunal moderno do interessante, à ovação da fama. As coisas, as obras, as atitudes e as palavras têm duração cada vez mais efêmera, e quem quer que se oponha ao viver da moda será considerado um tipo estranho, inadmissível à conversação do dia.

Dou um exemplo, relacionado ao meu curso Filosofia da Mulher (que em breve será editado como livro). Comentando sobre algumas ficções que considero importantíssimas para a compreensão da mulher, mencionei A megera domada, de Shakespeare, numa aula em Curitiba. Uma das alunas imediatamente levantou a voz, interpelando-me com feição desafiadora:

Mas o que é que um sujeito do século XVI poderia nos ensinar sobre a mulher atual?

É o tipo de pergunta que uma provinciana faria (justamente porque não o fez por maldade, mas com sinceridade de quem acreditava mesmo haver um dissonante na minha citação literária). Para ela – bem como para todo provinciano temporal – admite-se, em pleno século XXI, apenas aquilo produzido ou dito algumas décadas antes – a depender da bondade do sujeito, 50, 40, 30 anos talvez. Mais que isso non ecziste (ouvi interiormente o Padre Quevedo).

Na conversação diária, nas universidades e na mídia, o grande temor é parecer antiquado, dando demasiada importância “ao que já passou”. Chico Buarque é legal porque é atual. A poesia não é mais ensinada nas escolas – falo de poesia mesmo, não de versos regurgitados por um Gabriel, Pensador – porque é demodé, e seus grandes representantes, como Bandeira ou Drummond, não tratam de ecossistemas em apuros ou banheiro unissex por meio da rima pobre.

Se o que o espírito humano foi capaz de elaborar e criar há cinco ou seis décadas já não tem lugar à mesa, imagina o que Shakespeare ou Camões tenham escrito. É demais de velho, meus senhores; e chamar Virgílio para um suposto debate sobre a Europa ou a história de Roma nos inscreveria no rol de criminosos, praticamente.

A questão é que os mortos já não falam (não sei nos centros espíritas, pois é coisa que foge ao meu tato, literalmente). Sepultamos os que viveram antes de nós de uma maneira a impedir que reverberem suas ações. Queremos destitui-los de qualquer continuidade porque ocultamos entre nós, os “vivos”, a noção de eternidade. Falar da morte é falta de etiqueta. Falar dos mortos raia a desobediência civil.

Nossa surdez para com os gritos do passado é fruto de um provincianismo temporal, grande responsável por materializar o presente e deificá-lo. Como disse Roger Scruton no seu famoso documentário sobre a Beleza, estamos presos ao instante, e por isso nos escapa toda e qualquer visão de paraíso (que contém o passado, o presente e o futuro). Cortamos os representantes de outros tempos e, tal como se faz com a crítica literária nos dias de hoje, reescrevemos a história porque só os vivos têm o direito de narrá-la. Monteiro Lobato foi condenado postumamente, Machado de Assis simplificado para as novas gerações, capítulos da história brasileira recompostos a fim de servir às ideologias reinantes. Tudo o que foi está sob o jugo medíocre do que permitimos ser.

E por isso Shakespeare nada tem a dizer sobre a mulher do século XXI, pois o bardo inglês cometeu o pecado imperdoável de não ter nascido em 1970 e ter a pretensão de retratar a condição humana para além da contingência do tempo (pobre poeta, cheira a naftalina). Se o agora é o que existe e importa, o que não está ao nosso alcance – física e temporalmente – não pode ser. O tablet, as notícias do dia, as redes sociais e instantâneas compõem, em grande medida, as nossas circunstâncias, fazendo do mundo uma res extensa de centímetros e minutos. A grande ironia, hão de concordar, é o aumento da distância entre nós desde que as coisas ficaram assim.

Seja por que o relativismo tomou conta da conversa, seja por que estamos mais estúpidos simplesmente, o fato é que não ouvimos os mortos e nem percebemos a vida que só eles podem nos oferecer – aquilo que experimentaram, viram, sentiram e conheceram, valorável conforme a universalidade ou não do seu conteúdo – mas os catalogamos como inexpressíveis. No mundo atual, que expressão tem a voz de Dante? De Racine? De Jane Austen?

E daí não entendemos por que razão nossa convivência se tornou uma espécie de materialização de um título autobiográfico de Lima Barreto: um cemitério dos vivos.

 

 

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