O Natal se aproxima e, com ele, os delírios da nossa fraqueza: inconfessável, nutrimos no íntimo de nossas almas uma esperança de cariz revolucionário, já que agarrada por fios de angústia a uma mudança de vida que, se olhada mais de perto, deveria ter sido feita pouco a pouco durante todo o ano em que nada fizemos. As canções de costume, com seus sinos a reverberarem agudamente em nossas consciências, servem à ansiedade do tempo; caímos, semana após semana do advento, numa espiral de fuga dos próprios pensamentos acusatórios, surda aos gritos do coração que teimam – como os sinos das canções – tilintar dentro de nós.

O que poderia ser um tempo de alegria pelo milagre que se celebra – uma convivência pacífica consigo e com os outros -, acaba se tornando um tipo de estranho calvário, numa confusão interior que rouba à data seu significado mais profundo. As distrações de costume, como as compras, a festa da firma, as luzes coloridas de estética duvidosa, as listas de comidas e as programações especiais para o fim do ano, servem para anuviar a percepção que, bem o sabemos, persiste e humilha.

A conta que fazemos – muito depressa, temerosos dos resultados – é esta: sendo o Natal o irrompimento de uma novidade sem par, a aparição da essência em condições irrepetíveis e verdadeiramente consoladora para todo o sempre, impele cada homem e cada mulher deste mundo a julgar seu próprio “nascimento”. Em outras palavras, a avaliar o que de novo se passa debaixo do sol pessoal e refletir, a partir disto, em quem nos tornamos desde o último vinte e cinco de dezembro. Como devem saber, geralmente a conta é um vexame: os velhos dilemas continuam lá, assim como as possíveis paralisias existenciais, as cansativas questões familiares, os passos em falso ainda sobejantes etc. Entretanto, para melhor suportar os efeitos da festa cristã, as almas desabrigadas da frondosa sombra do Amor encarnado, recorrem aos encantamentos disponíveis tanto nos centros comerciais quanto na falsa alegria que agita suas estruturas carentes.

Para mim, nosso grande inimigo – neste tempo do advento e em todos os outros – é o barulho: esse bater de copos e calcanhares, essa música insistente, essa fúria por distinção em meio a tanta banalidade cultivada. O silêncio, que sozinho não restitui o Natal de ninguém, é talvez o único cenário interior em que seja possível recobrar a consciência neste tempo em que cada um de nós é chamado a dispor o próprio presépio segundo a importância de seus personagens. Em outras palavras, a ausência de agudos e graves desnecessários, dos tumultos ensurdecedores da massa, dão ao seu portador um cenário mais fidedigno à realidade, em que não é preciso grande esforço para reconhecer o que cabe aos animais, aos homens, aos reis e, em perfeita instância, ao Menino Deus.

O Natal não precisa ser um tempo de angústia ou tristeza pela suspeita (comum) de falhanço. Mas isto dependerá muito do que faremos entre este nascimento que se avizinha e o próximo que é ainda esperança.

 

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