Um dos livros que marcaram minha vida foi “As moradas do castelo interior”, de minha santa de devoção, Teresa d’Ávila. É claro que se você me perguntar as passagens do livro que tenho guardadas na memória, ou os capítulos que posso resumir de chofre, responderei que nada; nenhum. Não é esse o tipo de marca que a leitura daquela obra me causou: para mim, desde então, e sem lembrar uma frase específica do texto, eu sou chamado a ser senhor do meu castelo, aquele que conhece os cantos da minha própria morada e reserva, devidamente, a mais alta e digna a Quem de direito. Não por acaso, o curso A Vida Humana – e o livro sobre Felicidade que vem aí, pela Editora Simonsen – começam pelo mapa do mundo pessoal, tratam da posse de si mesmo, impelem à cartografia da vida interior.

Este castelo, minha vida, tem muitas moradas. Sua arquitetura tem a organização da minha alma: o que tenho como mais valoroso e importante, acima, nos quartos mais altos, depois das escadas das dificuldades e das virtudes arduamente buscadas. O que considero mais imediato, porém indispensável, fica embaixo, ao alcance dos pés mais apressados, desde que acordo e abro a primeira janela desta casa a que, reforço, sou chamado a ser senhor.

Entre castelos existem diferenças abissais, como existem entre nossas vidas: são expressões da ordem ou desordem a que nos submetemos; da hierarquia das coisas a que nos dispomos seguir, mais ou menos fielmente. Há grandes e pequenas obras, altas e baixas construções, poucas ou muitas moradas. Quantas existiriam na alma de Teresa? Quantas existem na minha?

Todos têm seus fossos a que podemos chamar de miséria, mas a nenhum castelo é permitida a padronização a que identificamos por mediocridade. Foi o próprio Cristo, no livro de João, quem disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” – e aqui o sentido é justamente o de riqueza, complexidade, heterogeneidade da realidade divina (o que condiz com o poder criador de Deus e a existência criativa do homem).

Minha vida tem um número de quartos ou moradas que depende de quem sou desde a origem, e da minha intenção em conhecê-la, dispô-la, alterá-la no que me disser respeito. Posso alargar as bases do castelo, posso erguer grandes torres, juntar alguns cômodos: a ordem a que submeto depende da lei da arquitetura individual eleita. Se é o amor a premissa maior dessa mesma lei, então as chances das moradas estarem em acordo com o projeto divino são grandes: Deus estará lá, onde tem de estar; minha fome, meus desejos, minha sede de justiça e minha necessidade de amigos, por exemplo, também. Tudo em seu devido lugar, em altura e profundidade.

E o reino – à que pertence o castelo em seu protagonismo de guarida de quem sou – à medida que se torna mais “meu”, menos senhor me reconheço: o paradoxo desta apropriação é expresso naquele “aventuremos a vida, pois melhor a salvará quem a tiver por perdida”. 

Palavras, aliás, de Santa Teresa.

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar os seguintes marcadores e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>