Nas relações humanas impera uma lei não muito clara: há níveis de interferência pessoal, graduada segundo a disposição do outro e a minha suscetibilidade à sua presença. Em outras palavras, de todas as pessoas que existem no mundo e que de alguma forma eu encontro, há desde aquelas que pouco me importam até as que são radicalmente importantes para mim. Entre a moça da padaria – a quem apenas dou boa tarde – e a minha mãe existe uma grande diferença, perceptível pelo comprometimento da relação e o confessado poder que esta exerce sobre mim.

Sim, as pessoas que mais me interessam têm algum poder sobre mim. Elas são importantes justamente porque – saiba disso ou não – possuem alguma força que me torna uma espécie de espectador atento; são, para aludir aos conceitos que sempre abordo em minhas aulas, substâncias por quem me altero. Para bem ou para mal, psicológica, existencial ou espiritualmente, estas vidas me dizem respeito e um dos maiores sintomas de seu poder sobre mim é o fato de falar sobre elas.

Vejam como a “coisa” funciona em alguns exemplos práticos: por que aquilo que ele faz me incomoda tanto? Por que tudo o que ela diz parece ser dirigido a mim? Qual a razão de suas publicações no facebook me interessarem sobremaneira? Por que preciso depreciar o que ele diz ou saber onde ela vai? E com quem?

Quem quer que já tenha se apaixonado uma vez na vida entende o que estou falando. A presença – e até mesmo ausência – do outro me altera; fala diretamente comigo e por isso mesmo não há outra saída senão confessar seu poder. Seja porque eu o odeio, seja porque eu queria ser como ele quando crescer, o fato é que estou sujeito à sua força. É humilhante, mas revelador da minha personalidade – e de meu inventário de crenças, limites e inclinações – poder dizer por quem dobro meus joelhos, ainda que para lançar sobre ele toda a minha raiva. Trocando em miúdos: goste ou não, tenho meus senhores, a quem posso xingar ou abençoar pela simples existência.

A interferência pessoal é grande quando de alguém se fala muito ou se evita a todo custo falar; quando se busca freneticamente menosprezar ou imitar; quando se perde a naturalidade estando em sua presença, ou quando se importa com cada pequena coisa que faz, diz ou ensina.

A pergunta que devemos fazer, diante dos senhores que atualizam em nós algum tipo de passividade, é esta: quem é este que está a menosprezar tanto? Quem é este que elogia exageradamente? Ou que paralisa diante da presença?

Mais uma vez, os outros também são matéria de conhecimento de si; de posse da própria vida e suas direções.

E para que não digam que esqueci do amor, arremato (convidando para o curso que inicia esta semana): diria Tolstoi que amamos quando somos felizes pelo poder que o outro tem sobre nós. 

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