“Quien nunca hubiere sufrido, poco o mucho, no tendria conciencia de si”

Miguel de Unamuno

Será que existe algum tipo de atração pelo sofrimento? Por que não existem livros com histórias de alegria completa, realização do começo ao fim, encontros amorosos felizes, descritos ao longo de todos os gozosos capítulos? Por que é o revés, a dificuldade, a dor, a infidelidade, o motivo dos argumentos mais interessantes, das narrativas mais famosas? Então será a vida mesmo a “arte do encontro, embora haja tanto desencontro”?

Sofrimento parece render boas histórias, muitas horas de terapia, longas conversas entre amigos, letras de música, estrofes de poesia. O mesmo não acontece – pelo menos na mesma proporção – com a alegria, a felicidade, o sucesso. Mesmo quando algo termina bem na ficção (seja um filme, um livro, etc), geralmente é resultado de uma trajetória de dificuldades, buscas, erros e sacrifícios. As mais belas histórias de amor – Romeu e Julieta, Os noivos, Amor de Perdição, etc – têm seus finais felizes após algum sofrimento. Se assim não o fosse, não as leríamos, nem escutaríamos com tanto interesse – tente imaginar a famosa história de Shakespeare começando bem, com os dois protagonistas podendo realizar seus sonhos e não encontrando nenhum impedimento externo. No mínimo sem graça, diríamos.

Quem são as pessoas mais fascinantes? As que passaram pela vida como um bon vivant, desfrutando da existência como quem tem manjar turco para sobremesa de segunda a domingo? Seriam estas, que não têm outra coisa a nos dizer senão coisas boas sobre a própria vida? Tenho a impressão que não – e corro o risco de dizer que esse tipo de pessoa priva-se, ou é privada, de um aspecto fundamental da vida humana.

Nossa atenção ao que sofre, nossa atração pelas histórias difíceis, nossa preferência pelos testemunhos heróicos (frutos de uma jornada de vitórias sobre grandes obstáculos) parece ser um tipo de correspondência. É como se reconhecêssemos nisso a nossa condição: viver é uma arte difícil, permeada de desencontros e sofrimentos de toda ordem, e as grandes narrativas funcionam como modelos de realização deste que parece ser nosso script comum. Não é a mesma coisa que dizer que nascemos para sofrer; mas nascemos, sim, com a possibilidade de sofrer e no sofrimento encontrarmos as leis que regem nossa existência.

Estar no mundo é admitir sua contingência – do mundo e da nossa vida individual. Portanto, as biografias mais admiráveis podem ser aquelas que absorvem essa circunstância limitadora e, de alguma forma, a transcendem. Na hierarquia dos tipos de personagens literários, Northrop Frye destaca os míticos como os mais perfeitos. Se pensarmos em Hércules ou Perseu, por exemplo, perceberemos que sua grandeza advém da proporcionalidade de seus feitos, que são conquistas e realizações sobre as dificuldades e trabalhos que lhe foram impostos. Os personagens mais baixos, seguindo a teoria do crítico canadense, são aqueles chamados irônicos: abaixo de si mesmos, das circunstâncias e dos deveres pessoais. Se sofrem, é inconscientemente, pois são incapazes de projetar e pôr em movimento uma biografia de valor, que recuse a paralisia existencial, admita as dificuldades e opere com os fracassos e a incompletude. É a diferença entre Raskolnikov (de Crime e Castigo) e Leniza (A estrela sobe, de Marques Rebelo). A busca do sucesso pela segunda – que deseja ardentemente ser uma estrela do rádio – é uma fina ironia do seu criador: não é isto a vida humana e a coisa que mais se lhe opõe é justamente essa imagem de palco e aplauso.

Nossa condição é dramática e o sofrimento é uma via de acesso às verdades que podemos reconhecer e testemunhar nesta vida. As delícias, os prazeres, o gozo, quando nos acontecem são como uma espécie de alento ou consolo: servem para nos fortalecer naquilo que realmente nos torna humanos, dá-nos substância. Por isso, e neste sentido, é mais humano quem mais sofreu. A recusa do sofrimento (e não estou dizendo que devemos desejá-lo com toda força) é uma negação da própria condição, fruto de uma inversão de perspectiva, desde a qual Marx julgou o paraíso apenas terreal, Nietzsche quis ser um devoto apenas de Dionísio e eu e você confundimos existência com férias.

Já ouvi muitas histórias de alunos que me procuram para ser atendidos (a bioiatria que pratico). Digo a vocês: sabe mais de si quem mais sofreu, pois sofrer permite-nos acessar o fundamento da vida, um núcleo composto mais de tensão do que de usufruto. É o que nos faz literalmente tencionar nossas vidas para o que importa, vencendo a inércia característica da leniência domingueira. Talvez por isto Deus tenha nos oferecido modelos de sacrifício que, pelo que acreditamos, mereceram os maiores júbilos no céu – a começar pelo próprio Cristo. As marcas no rosto, as cicatrizes pelo corpo, os dramas vividos, os fracassos, em suma, a escuridão solitária pela qual todos passamos, é o que nos distingue, nos torna mais interessantes, nos forja humanos. Doenças, falta de dinheiro, dificuldades em casa, desemprego, etc: tudo é graça se admitida a perspectiva a que me refiro. Tudo é capítulo da aventura humana que perde para poder ganhar.

 

 

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