A recente celeuma em torno de uma decisão judicial que permitia, aos psicólogos que assim se propusessem, o acompanhamento terapêutico de pessoas infelizes ou angustiadas com a sua homossexualidade, com vistas a uma alternativa de comportamento sexual, pouco me interessa pelo seu aspecto político: as manifestações mais ou menos histéricas e entrincheiradas ideologicamente, de todos os lados do campo dos partidos, são matéria para outras reflexões. O que a conjuntura revela – e sobre o que tenho pensado recentemente -, é o componente dramático que parece inerente à condição sexuada humana, capaz de fazer sofrer, de gerar os mais tortuosos dilemas psíquicos e existenciais, além de servir de tábua aos jogos do poder e engenharia social – coisa a que já vamos nos acostumando neste tempo de açambarcamento da vida em cada um de seus componentes, seja pelo Estado, seja pela mídia, seja por qualquer outro agente decidido a esquadrinhar o mundo pessoal.

Portanto, e partindo da premissa de que a polêmica não se restringe à esfera jurídico-política, mas antes contém um segredo de interesse genuinamente humano, sobre uma de nossas mais estruturantes realidades pessoais, creio ser oportuna a minha despretensiosa intervenção na praça.

Como já escrevi outras vezes, sexo é bom. Mesmo. Nos dois sentidos: no plano das sensações – no gozo a que ansiosamente buscamos quando abraçados ao corpo do outro -, e no psíquico, que se vê consolado da solidão em que todos moramos em alguma medida, através de uma interpenetração que ultrapassa, assim o creio, os órgãos genitais. Eis uma delícia da vida, tanto celebrada quanto acusada: por motivos que transcendem os limites deste texto, tem sido o sexo uma presença marcante nos púlpitos, nas obras filosóficas, nos consultórios de psicologia, nos diários de burguesinhas tolas e nas anotações de campo de antropólogos. Mais importante do que isto, a sua necessidade de resposta – sua forma de nos interpelar pessoalmente e exigir uma postura sadia ou neurótica, livre ou cativa -, imbui nossas trajetórias individuais de um cariz sexual, o que condiciona, em parte, nosso ir vivendo. Em outras palavras, a vida humana, assim como reclama um sentido, uma posse de si, um ânimo ou têmpera, também espreita nossa atitude frente ao sexo, nossa história e forma própria de preencher o espaço a que o nascimento lança em desafio. Um pênis ou uma vagina são também circunstâncias, no sentido orteguiano, a serem absorvidas ao longo do tempo; ignorá-los, assim como ignorar a raça ou a idade, é prescindir não apenas de um componente, mas da humanidade que também está na integração das partes.

Por isto considero urgente dar novos ares às discussões que envolvam a realidade sexual, independentemente da esfera onde transcorra o debate. A meu ver, uma boa perspectiva, de novo, é a da substância que se perfaz no tempo: olhar para o sexo como aquilo que pode dificultar ou promover a substanciação da pessoalidade. Dado que somos, num sentido, feitos de irrealidades e escolhas, composição de nossas vidas com uma liberdade que falta às espécies plena e totalmente determinadas, a pessoa que cada um é deve-se também a um como, para além do que herdado no nascimento. Se é verdade que nascemos humanos, recebemos o ser inconfundível e particular, também o é o aspecto criativo da pessoalidade, o cultivo histórico da substância a partir da qual somos mais ou menos homens, mais ou menos mulheres, numa aferição que se dá pelos graus biograficamente conquistados.

Assim, atos sexuais – e a condição sexuada como um todo – servem ou não, num processo que se caracteriza pela tensão, e não pelo “claro/escuro” dos moralistas, à realização da pessoalidade, sua melhora qualitativa (outra forma de dizer substanciar). A consequência lógica decorrente disto é esta: as regrais gerais não são particulares, por óbvio; não atentam à especificidade da alma individual, suas trajetórias e campos de latência existenciais. Não defendo, entretanto, a abolição destas mesmas regras (que, para mim, são universais e devem inclinar ações); apenas ressalvo, e com maior premência nos dias que vivemos, o caráter profundo e pessoal do sexo, que sendo bom em si mesmo, não deixa de ter nuances e suscitar dúvidas no modo como o realizamos em nossas vidas, em prol do que possamos considerar o “ganho” de pessoalidade (mais vida … em abundância, e não seu contrário).

Eu, por minha conta e risco, tenho dito a quem me pergunta – e atenção ao universo “quem me pergunta” – que o sexo é o campo onde se travarão importantes batalhas pelo espírito humano. Não acredito que a postura do resguardo monacal por toda a gente seja, precisamente nas circunstâncias que sofremos, o código moral a ser seguido, nem espanta, ao ponderarmos isto, as recentes pesquisas que demonstram a queda do apetite sexual nas novas gerações, e a substituição da intimidade da cama por um simulacro virtual qualquer. A par destes resultados, penso que o leitor também deseje que a espécie se arme contra a própria “extinção”, sabendo da promessa de substância que se encontra no drama individual em que se anuncia o ato de fazer amor ou transar.

Em resumo, a decisão por fazer sexo com alguém, a certa altura da vida, é irremediavelmente uma escolha pessoal; uma aposta mais ou menos segura numa experiência que pode fazer crescer aquele que se desnuda, ou diminuir o que se suja.

 

 

 

 

 

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