Há dois tipos de pessoas que dão importância exagerada para o sexo: as que praticam demais e as que nunca o praticam. Os primeiros, obviamente, transformam o ato sexual em vício e, como acontece com todo vício adquirido, pervertem o bem que poderiam alcançar pela atividade. No caso da intimidade a dois, o bem é o consolo da gravidade humana, um dos mais prazerosos suspiros da vida.

Já as outras pessoas, que do sexo conhecem apenas as definições dos dicionários e catecismos, erram por abstraí-lo. Transformam-no naquilo que não é e arrepiam-se diante de um chicotinho de couro. Entre um abracinho na mentira do dia e a prática sexual, escolhem o primeiro. De mentira em mentira, constroem suas neuroses – geralmente de fundo falsamente religioso – e passam uma vida inteira lutando contra aquilo que deveriam fazer por amor e realização da própria condição humana. Causa-lhes horror a liberdade do outro, e são os primeiros a concluir mil julgamentos venenosos contra quem não sinta no sexo um problema.

Já perdi alunos, aliás, por dizer que entre dois seres que se amam verdadeiramente tudo é permitido havendo consentimento. Se isto é o ideal do sexo procriador, deixo para os teólogos responderem. Para mim, homem de carne e osso e fruto da modernidade, o gozo sexual é um deleite, uma verdadeira comunhão com o outro e que me suspende da existência pelo espaço de tempo suficiente para me ajudar a suportar a dor que é viver. Portanto, erram aqueles que enxergam no sexo um alívio, pois dele se tornam escravos – pornografia, onanismo, orgia – especialmente por entenderem o movimento sexual como um círculo (que começa e termina no sujeito egoísta). A radical diferença entre o alívio e o consolo está no fato de que consolo só existe para quem inclina-se em direção a algo (ou alguém) que não seja ele mesmo. Assim como acontece com a arte ou a filosofia, o consolo que o sexo oferece é um prêmio para quem sai de si e termina em outra realidade – no caso, o ser amado – alargando por um instante que seja sua própria realidade, que aumenta de tamanho e abranda o sufocamento da individualidade. Sexo bom é aquele que expande minha vida porque inclui a do outro.

Aristóteles formulou a famosa teoria do justo meio: a virtude está entre os excessos (para mais, ou para menos). E eu estou aqui dizendo – ou alertando – que quem vê no sexo apenas sujeira e pecado está do outra lado da corda, disputando com os viciados o lugar na sala da infelicidade. Para quem preocupa-se demasiado com a decência, a aprovação social da conduta individual, pode perder a chance vital de alcançar a verdadeira maturidade moral. E esta, senhoras e senhores, não exclui necessariamente o chicotinho ou o sexo sem camisolão.

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