Existem algumas certezas que costumo chamar de “narrativas”. São aquelas “verdades” que advém da própria história pessoal e a forma com que o indivíduo conta a si mesmo o que fez e o que lhe aconteceu ao longo do tempo. Como tudo na memória humana, essas certezas também são depositadas no fundo mnemônico em forma de imagens e com elas criamos nossos autorretratos. Em outras palavras, enquanto vivemos, acomodamos cada uma das experiências dentro de nós em forma de imagem, e esta mesma imagem não é desprovida de interpretação: por isso um fato, ocorrido a dois homens simultaneamente, é retido de modo pessoal e irrepetível por cada um deles.

Por ser imagem interpretada – nenhum fato é depositado intimamente de maneira “bruta” – o ser humano retira conclusões. São estas conclusões acerca da vida, de algum aspecto dela ou de si mesmo que estou chamando de certezas narrativas. Por exemplo: dois aniversários seguidos foram “desanimados”; vividos solitariamente. É comum que o sujeito passe a dizer: “não gosto de aniversário; sempre fico triste”. Isto é resultado de uma interpretação e consequente conclusão narrativa. É pelo modo que conta sua história, neste sentido, que cada um possui a si mesmo e “compõe” sua auto-imagem.

Nenhum de nós consegue viver sem essas certezas narrativas. Elas são como predisposições existenciais, habitual e automaticamente “sacadas” pelo eu quando confrontado com experiências análogas. “Vamos naquele bar?”. “Não, sempre que vou lá me arrependo depois”. E assim vamos criando as claves onde dispomos as novas experiências que vão chegando e sendo acrescentadas às certezas que já temos.

O mais difícil, você já deve estar presumindo, é permitir a alteração dessa auto-imagem ou autorretrato que continuamente reapresentamos a nós mesmos. É preciso uma dose de “abertura de alma” para aceitar um dado novo e permitir que uma verdade interior seja posta em suspenso. Um dos elementos caracterizadores da maturidade é justamente este: a capacidade de pôr em dúvida as próprias certezas e de harmonicamente rever a si mesmo, dando novos traços ao autorretrato exposto diante de si. O apego neurótico à imagem de eu já configurado é um tipo de morte biográfica. O sujeito conquista uma rigidez particular aos cadáveres que não têm mais a chance de mudar.

Pelo simples fato de que não podemos viver sem contar a própria trajetória, sem narrá-la de forma mais ou menos consciente, é necessário destacar este ponto que leva uma grande parte das pessoas a assumirem existências enfermas, incompletas ou superficiais. São elas reféns das interpretações feitas na adolescência, como o menino Lênin que odiou toda a Igreja por ter levado uma dura de um padre no confessionário. São conclusões geralmente precipitadas e que não dão conta da dramaticidade e complexidade da vida humana.

É pela sua composição que a vida exige este olhar interessado, aberto e adaptativo: o famoso “oito ou oitenta” aplica-se a pouquíssimas situações, humanamente falando. Com o passar dos anos e o acúmulo de experiências, aprendemos que certos julgamentos morais, algumas explicações esquemáticas e outras formas de fundamentalismo existencial não passam de perigosos suicídios biográficos. Há bem mais “modos” de ser; há muitas outras alturas a serem consideradas nas conclusões que temos a nosso respeito, a respeito dos outros etc.

Julián Marias disse que não aprendemos com o cérebro, mas com a vida: ela é o órgão de assimilação e acomodação das experiências pessoais. Quanto mais vida, melhor compreensão. Por isso venho dizendo para crescermos e tentarmos, todos os dias, termos presente as alturas e profundidades da realidade, começando na auto-imagem, que deve ser uma provisória composição daquilo que descobri sobre mim e que tenho a sincera intenção de alterar no encontro seguinte com a Verdade, balizadora do conhecimento de si e do mundo.

É como dizer que a cada prova da Verdade, absorvida em experiências radicais, tomo de assalto mais um pouco da constituição das coisas. Fico sabendo algo que preciso integrar ao que já sabia (e, se necessário, rever o que julgava ter como certo). Altero meu autorretrato enquanto fico à espera de mais Verdade; mais vida que me ajude a ser quem eu sou na transitoriedade dos dias.

 

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