Eu invejo, tu invejas. Segundo São Tomás de Aquino, este é o pecado mais pernicioso de todos – e o motivo me parece claro: ele destrói, pouco a pouco, a comunhão entre as pessoas; impede que a convivência amorosa aconteça (o que, em outras palavras, põe a perder o Paraíso). Entendido o homem como criatura amorosa – definição de Ortega y Gasset – a atualização pessoal da “humanidade” exige que amemos alguém que seja destinatário de nossos melhores sentimentos e inclinações; personagem de nossos projetos e trajetórias. Amar é a ação humanizadora por excelência, e a inveja o ato de negação dessa possibilidade.

As pessoas, graças a Deus, são diferentes – e não me refiro a gostos apenas. Existem “diferenças verticais”, por assim dizer. Explico: toda vez que dois homens se encontram acontece um processo simultâneo – e quase sempre inconsciente – de reconhecimento destas realidades denunciadas pela presença e que põem em evidência a riqueza da alma humana: há sempre algo em que meu amigo é melhor do que eu (e o contrário também é verdadeiro). Se horizontalmente somos iguais – na condição humana, por exemplo – verticalmente não. Justamente isto (aquela virtude que ele tem em maior grau, ou o talento para algo que realmente me falta) desperta em mim a admiração: eu confesso que aquilo é bom e que está nele de forma mais patente do que em mim. Seja por esforço pessoal dele, seja por um dom natural, ele é verdadeiramente melhor do que eu naquilo que está me chamando a atenção no momento. Não ter problemas em reconhecer essas grandezas do outro é o que podemos chamar de magnanimidade.

A inveja é um sentimento de pesar em relação à realidade: não está bem que ele seja, que ele tenha, que ele alcance, e eu não. Com maior ou menor profundidade (pode ser um sentimento passageiro ou uma instalação vital), o invejoso não admira; antes, luta contra o bem que pulsa na vida do outro. Rasga, em outras palavras, o “amai-vos uns aos outros”. De criatura amorosa a inveja nos transforma em contratualistas sociais (como bem descreveu Thomas Hobbes, por exemplo): os bens têm de ser distribuídos igualmente, e o destaque acima da média deve ser punido de alguma forma (veja até onde pode chegar a mensagem socialista).

Mas a inveja serve também ao propósito do autoconhecimento: afinal, por que eu invejo exatamente aquilo que ele tem ou é? Por que tenho problemas em admirar aquela virtude, aquele talento natural, aquela conquista pessoal que eu mesmo não consigo realizar ou obter?

Haverá forma mais eficaz de reconhecimento da própria miséria?

A análise das motivações pessoais da minha inveja colabora com o mapa do mundo pessoal; se é possível fazer algum bom uso de um pecado como este, então que seja. Mais vale um homem que conhece a própria maldade do que um iludido com complexo de anjo.

A convivência humana – sadia, redentora – depende disto: de que superemos o fundo soberbo que existe em maior ou menor medida em cada um e confessemos as riquezas do outro. Mais: que nos alegremos por ele tê-las. A normalidade das relações (entre amigos, amantes, colegas de trabalho) está intimamente ligada à confissão mútua de dependência, complementaridade, acréscimo: é da história do Paraíso a conclusão divina de que “não é bom que o homem esteja só”, e a criatura amorosa não pode fazer apenas o movimento centrífugo de amar a si mesma.

Amando a verticalidade alheia é que se sobe ao céu.

 

 

 

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