Por que existem os personagens biográficos? Afinal de contas, por que permitimos que tantas vozes falem numa mesma vida que, por origem e vocação, deveria ressumar por todo o sempre a própria substância? Por que aceitamos que a multidão tome forma e crie morada dentro de nós?

Para mim, uma das conquistas mais admiráveis da filosofia grega, corroborada e aprofundada pelo cristianismo, foi a consciência da individualidade. Há, pelo menos desde Sócrates, uma instância na qual todas as outras vozes se calam porque são deixadas para fora no umbral da intimidade – reduto radical “conquistado” ao longo do tempo. Apenas em posse deste reduto um homem pode falar em próprio nome, sendo o autor verdadeiro da própria vida.

Falar em nome dos outros, do partido, da instituição, da classe profissional ou do professor, é o arremedo de conversação que nos restou, depois de sucessivas investidas contra a realidade da intimidade e a inviolabilidade ontológica da substância humana: a pessoa criada, irrepetível. Por maiores que sejam os gritos de toda parte, de todos os cantos da sociedade, continua a resistir a realidade pessoal – ainda que por baixo de tantas camadas de mentiras, generalizações, abstrações, lugares-comuns e falsas instalações existenciais que legitimam os mais diversos personagens que encarnamos para conviver nesse circo moderno.

A complexidade e a riqueza da vida humana, pressupostas na liberdade característica do homem, abrem as mais variadas possibilidades biográficas, podendo existir uma Dilma Rousseff ou um Aristóteles. Além das diferenças inatas, a liberdade chega ao limite da pessoalidade e permite que o indivíduo escolha ser quem ele queira ser a partir da “matéria” recebida em sua entrada na existência. Isto equivale a dizer que cada um faz-se historicamente e decide, na instância do eu narrativo, a que trajetórias irá aderir e percorrer. É o famoso ego que, como um rei assediado por muitos súditos (as vozes dos mais diferentes apetites), escolhe a quem atender.

Se escolho a multidão, o todo mundo e ninguém, é disto que se tratará meu reino interior: de uma multidão de vozes disputando caoticamente um lugar de destaque. Abafada pelos gritos cada vez mais altos e histéricos (Fale de política! Entra nessa polêmica! Pontifique sobre alguma coisa! Chame a atenção de seus alunos! Escreva algo de impacto! Compre aquela coisa também! Poste uma foto!) a pessoa que cada um é não terá condições de falar claramente. Em resumo, todas as outras vozes darão o tom da narrativa biográfica e os milhares de personagens farsescos assumidos de maneira instantânea e intermitente impedirão que o personagem real ganhe o primeiro plano.

As redes sociais comprovam com nitidez assustadora: onde estão as pessoas? Por trás de tantas caricaturas e personagens mal interpretados, onde elas moram? O que fazem, qual sua voz, como sentem verdadeiramente o mundo? Quem realmente reza como se dependesse do auxílio divino para não danar sua vida? Quais, daqueles que gritam sem parar, dariam suas vidas pela realidade e não por sua explicação?

Quem, dentre nós, está a falar em nome próprio e com o vigor peculiar daqueles que habitam como soberanos os seus reinos interiores?

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