Herbert Marcuse publicou, em 1964, um pequeno livro sobre os supostos efeitos da industrialização e das armadilhas modernas – leia-se, capitalistas – no ser humano. “A ideologia da sociedade industrial”, como foi publicado no Brasil, é um interessante texto sobre aquilo a que Marcuse chamou de homem unidimensional: o indivíduo que, açambarcado pela lógica da racionalização dos contrários, crente nas promessas alvissareiras da tecnologia, carece de tensões e vive como se não houvessem verdadeiros mistérios e dramas insolúveis. A vida humana, para este novo tipo social, é uma equação bastante simples, e os elementos indesejáveis que teimosamente emergirem, sugerindo algum pequeno caos à ordem tão comezinha por ele cultuada, têm de ser resolvidos pelos engenheiros da paz em que acredita sem pestanejar. Trata-se de um crente, sem dúvida.

Mas se a análise e a crítica do referido autor são, por óbvio, de matiz ideológico – parte de seu claro confronto com a sociedade capitalista que rechaçava de alguma maneira -, não é preciso que ainda hoje façamos uma leitura plana da obra que, àquela altura das notícias do século XX e mais especificamente da década de 60, pretendia-se mais uma lenha à fogueira dos acontecimentos. Marcuse pertenceu à Escola de Frankfurt, o que, acredito, dispensa maiores comentários neste sentido. É como tributário de sua inteligência e de seus acertos, mas ultrapassando as conjunturas econômicas e históricas que serviram à sua teoria do homem unidimensional, que proponho aqui uma abordagem mais pertinente ao nosso tempo.

De fato – e mantendo-me fiel à perspectiva dos homens sem substância sobre os quais tenho falado e escrito -, estamos mais planos, por assim dizer. Tentados à praticidade e aos mecanismos fáceis de solução de nossas vidas correntes, deixamos, ainda que ilusoriamente, a era dos contrários e os andares da existência para os livros de história. Se existe uma marca bastante atual em nós, é esta, da unidimensionalidade. Mas o que se pode acrescentar à teoria é que o simplismo pode ocorrer não apenas no plano social ou psicológico, como tratou Marcuse, mas também no espiritual e anímico: também as almas modernas têm se tornado cada vez mais unidimensionais, incorrendo naquilo a que Igor Caruso chamou de complexo de anjo.

Isto se aplicaria da seguinte forma: o homem simplista, inconsciente das dimensões várias em que está inserido e de que é também constituído, opta pelo denominador comum da existência e a consequente exclusão das partes contrárias, sobressalentes, impuras ou ignóbeis. Exemplo: o sujeito que enxerga sua própria vida, e exclusivamente, como um evangelho de provações e milagres, delícias do céu e vitórias sobre o demônio. Todos os seus temas de conversa, de pensamento e de trabalho são os mesmos do anjo Gabriel, e aquelas carnes de odores fortes que também compõem sua humanidade são matéria de negação. É o rapazinho muito devoto que usa camiseta de Nossa Senhora e não tem ereções quando abraçado à namorada.

Temos outro exemplo, menos angelical: o engajado político – especialmente nas redes sociais – que funciona no binômio “gosto x não gosto” ou “direita x esquerda”. Incapaz de criticar Jair Bolsonaro, em quem deposita todas as esperanças de seu coração sem fissuras, atende aos vocativos inflamados de um lado e ignora os do outro (e a própria visão do mundo em dois lados muito marcados já denuncia seu simplismo piedoso). O leitor troque alguns sinais desta equação, substituindo Bolsonaro por Jean Wyllys, e terá os contornos do jovem “do lado de lá”.

Há, ainda, outros tipos de homens e mulheres unidimensionais: aqueles que só falam de globalismo, ideologia de gênero e Trump; ou os que enxergam toda a realidade como uma grande cama para sexo, em que os lençóis são héteros ou homossexuais. Também os fanáticos religiosos que, como o nome já revela, não reconhecem outra coisa senão seus mandamentos mais rasos; os de organismos como a ONU, exímia em padronizar aspirações e formatar sociedades inteiras e de diferentes origens em prol de uma nova casta politicamente correta.

São todos, por seu turno, homens sem tensões: dispensaram a si mesmos da vida como ela é. Também todos são pegos de surpresa quando confrontados com aspectos outros daqueles para os quais olham com frequência, reagindo como infantes ou “virgens de convento” ao saber das traições de um à causa que empenha, da “imoralidade” do chefe da repartição, das próprias sensações diante de um filme ou de um corpo, de um opositor político ou religioso. Em resumo, o homem unidimensional avilta o próprio mundo, destituindo-lhe subjetivamente de força, ou selvageria, ou inadequação, ou mesmo incômodo. As coisas ganham sabor de gelatina e não correm o risco de ofender seu mísero inventário de crenças.

Nelson Rodrigues não poderia ser mais necessário a estes ceguinhos por direito sem nascença: as surpresas que cada leitor colhe ao final de seus contos e crônicas funcionam como um tratamento, a médio prazo, da perspectiva doentia com que antes se aproximaram do anjo pornográfico. Em minha opinião, seus textos deveriam ser vendidos nas farmácias (além das livrarias), e só restariam curados, com laudo e tudo o mais que se tem direito num hospital, aqueles que conseguissem ler Marquês de Sade e Santo Agostinho, ouvir Vivaldi e Neil Young, falar das pernas das moças e das virtudes teologais.

Sem baralhar os comprimidos.

 

 

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