Oprah Winfrey, em seu discurso de agradecimento pelo prêmio Cecil B. DeMille, recebido na cerimônia dos Globos de Ouro 2018, disse, entre outras coisas e num tom inflamado, que a era dos homens poderosos chegou ao fim. Aplaudida fervorosamente por uma plateia de homens e mulheres da indústria do cinema e da televisão, suas palavras foram amplamente difundidas pelos dias seguintes, tomadas como exemplo de empoderamento feminino e de um golpe em cheio contra o machismo e as velhas normas sociais que, a seu ver, constrangem há muito as mulheres e outras minorias. 

Este texto não se pretende uma análise crítica do referido discurso – ela já foi feita, aqui e acolá, pelas redes sociais e outros meios de comunicação. Este texto quer explicar apenas por que, num sentido, Oprah Winfrey tem toda a razão: homens poderosos são espécie em extinção.

 

Os mortos esquecidos

Peço que o leitor tenha em conta dois modelos de homem: o de John Wayne e o de Winston Churchill. À sua maneira, cada qual expressou, no argumento geral de sua biografia, a virilidade que identificamos como primeira característica do gênero masculino. A força que ambos os personagens exerceram sobre o mundo, sinal essencial da masculinidade que portaram e, noutra medida, foram, realizou-se através dos vetores comuns pelos quais um homem toma posse do mundo: capacidade de julgamento dos fatos, emprego dos meios necessários para realizar um intento, confiança em si.

Sobre este último, escrevera Emerson num ensaio tornado célebre pela sua, vamos dizer assim, força“O coração e os músculos do homem parecem ter-lhe sido retirados e tornamo-nos medrosos, choramingas e desencorajados. Temos medo da verdade, da fortuna, da morte, temos medo uns dos outros. […] Somos soldados de salão. Esquivamo-nos à rude batalha do destino, onde nasce a força” (A confiança em si, editora Relógio d’Água).

Parece mesmo ser este um diagnóstico do novo homem, realidade forjada pelo novo tempo que experimentamos desde as revoluções e engenharias sociais que nos trouxeram a esta existência enfraquecida. Aquilo a que chamei de vetores comuns pelos quais os varões tomam posse do mundo, envergam-no, nele semeiam e também nele lançam seu fogo de armas e palavras, atos e ilusões, demonstram-se escassos; raros na convivência que ora provamos – o mesmo que dizer que os mortos que deveriam servir-nos de modelos de vida forte já não se fazem presentes pela emulação e perspectiva que preterimos em nome do bom mocismo, da paz pela inércia, do cômodo lugar dos invertebrados.

John Wayne é símbolo da virilidade sensível: sua postura, voz e atitude, são expressões de um tipo a que hoje chamariam selvagem. A maneira como, em seus filmes acima de tudo, resolvia os problemas, cercava os inimigos, tomava as mulheres, é uma arte quase rupestre para a geração de rapazes que precisa saber falar sobre suas relações, comunicar seus sentimentos graciosos e comer mais soja.

Winston Churchill, por sua vez, foi viril especialmente pela maneira que pensava, o que se depreendia não só de suas páginas escritas, mas também de suas decisões políticas, por exemplo. A força de suas palavras era resultado desta maneira análoga à de Wayne, desejável a todo homem, de se instalar no mundo e, num sentido, vencê-lo. Como diria Nassim Taleb, de atacá-lo quando necessário – ou, aos antagonistas que nele transitam a obliterar o bem – ao invés de apenas resisti-lo. O que os dois personagens masculinos têm em comum, e que sugeri como modelares do gênero, é esta medida acertada no enfrentamento das próprias batalhas, a penetração na vida sem o titubeio dos covardes, pudicos, moles e “educados” por um sistema a que Oprah Winfrey aplaude e fomenta.

 

Os conservadores afetados

Não fosse pela atuação indignada de uma parte dos “conservadores” que grita por aí, talvez não soubesse da existência do recente clipe da Anitta – aquele, com bunda, favela e fita isolante. Não é preciso dizer – ou é, já que estou tentando me antecipar às reações dos mocinhos com problema de ejaculação precoce – que o feito da cantora é horrível, estética e conceitualmente. Nada se salva, o sabemos. Mas a reação exagerada dos nossos meninos e meninas do Brasil, afetados na alma incorrupta com que bradaram contra a sem-vergonhice daquela que julgam imprópria para a cultura e a família nacional, é mesmo um capítulo à parte nessa indesejável história do debate facebookiano sobre o futuro da civilização ocidental.  Não entendi, depois de ter assistido ao clipe da moça, onde morava a inovação ultrajante. Como brasileiro nascido nos anos oitenta, vi coisas piores, mais grotescas e mais ridículas do que o bumbum-pandeiro da Anitta. “Objetificação da mulher” é velha conhecida nessas terras brasis, e não faz muito tempo uma outra cantora, Clarice Falcão, lançou para o redemoinho da internet um vídeo com pênis e vaginas à mostra, em close. Também não me assustei naquela altura: romanos antigos já tinham pensado e realizado coisa parecida, muito antes da ex-integrante do Porta dos Fundos.

A aumentada reação ao caso mais recente, do Vai Malandra, está longe de ser, na minha opinião, prova de maior consciência da população a respeito da arte que lhe oferecem. Não me parece que nosso zelo moral tenha crescido nos últimos anos; o moralismo, sim, em testemunho da religiosidade farsesca, juvenil, que se recolhe como exemplo nas mesmas redes sociais em que pululam moças castas, irresponsável e desavisadamente postulantes das virtudes evangélicas que só poderiam alcançar se antes fossem gente; não percebem o desatino de suas expressões histéricas a respeito de realidades que não podem mensurar, nem por alto, falando de Padre Pio ou Santa Teresa como falam de roupa e férias na praia. Os rapazes, que no alto dos seus vinte anos pontificam sobre todas as nuances do que consideram os assuntos paradisíacos, esforçam-se em parecer os homens do Antigo Testamento que as esposas receberão num futuro próximo (e escondem, por óbvio, as ereções que tiveram assistindo ao clipe da Anitta ou aos outros sítios virtuais frequentados no solidão do quarto em que dormem, na casa dos pais).

Que uma nova direita se levanta nalguns nichos da sociedade brasileira, por obra deste ou daquele, de grupos políticos ou de movimentos intelectuais mais ou menos organizados, é inegável. Que esta reação ao status quo seja, para além de política, cultural ou ideológica, também moral e espiritual, é coisa bem diferente. A soma do que se diz nesse indiscriminado universo das redes sociais é uma amostragem importante, a meu ver, do cinismo e leviandade que ainda prepondera e, por isto mesmo, impede que algo mais duradouro e verdadeiramente redentor aconteça no país da Anitta.

 

Antes de tudo, a força

Um homem deve, antes de mais nada, arcar com a própria vida. Falar em primeira pessoa e não esconder-se em identidades de grupo que, pela leveza da homogeneidade de intenções e objetivos, aliviam a tensão de individualmente ter de ser. Isto é desejável a homens e mulheres, sem dúvida. Entretanto, aos varões é feita uma cobrança – pela vida, acredito – particular: a de projetar-se sem melindres; reagir, sempre que possível, de maneira proporcional ao fato e nunca, se possível, enfraquecer. O que nelas é tido por sutileza, em nós é uma espécie de queda diante de si mesmo. Homens não são fortes, têm de sê-lo, parafraseando Julián Marías.

Essa pretensão de força que, nalguma medida, forja a estrutura do varão, expressa-se no seu modo de resolver situações da vida prática, de brigar, de tratar uma mulher, de fazer sexo, de se indignar, de se ofender, de trabalhar, de corroborar para esta ou aquela causa, de assumir uma família, de atender aos chamados da urgência e da necessidade. Um homem é poderoso pela virilidade que encarna, o que não se confunde com autoritarismos e machismos que são apenas desvios ou exageros de uma virtude que precisa ser conduzida pela inteligência e pela sensibilidade – aspectos, vejam só, femininos.

Mas as mulheres, num geral, estão com Oprah Winfrey: marcham pelo fim dos homens poderosos. Querem-nos, ao que parece, junto delas e passivamente, assistindo ao clipe da Anitta e celebrando seu empoderamento. Mas nunca, em hipótese alguma, reagindo aos apelos das coxas das moças.

Homens: fodam com isso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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