Quando menino, brincava muito sozinho. Filho único até meus nove anos, passei tardes inteiras dentro do meu quarto a promover batalhas entre meus bonecos, criar histórias para entreter minha mente, vaguear pelo silêncio da casa com uma nave na mão esquerda e uma espada na direita. Apenas eu testemunhei a salvação do mundo tantas vezes ali realizada, e preenchi de novas imagens minha provinciana existência numa cidade pequena do interior do Paraná. Os limites exteriores não tinham ressonância dentro mim: no foro íntimo tudo era possível, e nessa infância de aparência solitária, foi-me concedido pela vida provar dos conteúdos imaginários que dão à existência humana líricos contornos. Quem, como eu, sinta saudades do tempo de menino, deseja aquele consolo que abranda o prosaísmo adulto e cotidiano, gozado novamente por uma espécie de habitação provisória na Nárnia de nossos próprios contos de fadas.

Parece-me evidente, aliás, que a vida moderna esteja marcada pelo processo oposto, com a destruição de qualquer guarda-roupa alusivo ao reino do inexplicável. Tédio, ausência de verdadeiras novidades e falta de espanto: é como se tivéssemos tornado nossa presença no mundo uma escala cinzenta, e afastado de nós as nesgas por onde penetram as cores da abundância, da plenitude, das irrealidades – tal como na infância naturalmente se faz – e que transgridam os limites asfixiantes do dia a dia. Nossa devoção aos produtos da razão, como arguida por René Descartes e hoje encarnada por Drauzios Varellas do espaço público, fez com que nos fechássemos para o caráter mítico e “impossível” que também compõe a realidade. Desde que passamos a ver as coisas como peças de uma máquina, e a querer entender este mundo como estrutura inteira lógica e sem espaços para o absurdo ou para o que supere nosso raciocínio, a vida humana de fato revestiu-se de uma monotonia, e sua beleza e substância paulatinamente devoradas por Saturno, tal como representada no famoso quadro de Goya.

O cientificismo moderno, ainda que com grandes conquistas, dificultou a atualização daquela experiência infantil pela qual tornávamos a vida mais leve e rica; também pela qual ensaiávamos caminhos possíveis, profissões e destinos. O atual inventário de crenças, baseado no princípio número um de que existe somente aquilo que a mente comprova através da técnica e da ciência – pela capacidade da razão, em outras palavras – tolhe os saltos da imaginação e nossa também natural inventividade. Os efeitos disto, como se insinua, sentem-se na diminuição do horizonte humano, no aviltamento da existência, na proximidade com as criaturas inferiores como os animais (e até na abolição das diferenças, como apregoam alguns atualmente), nas crescentes dificuldades de aprendizagem dos nossos alunos, nas medíocres publicações acadêmicas, na angústia que fere a muitos de nós e não só aos domingos, na suspeita (acertada) de que a vida deveria ser mais do que trabalhar e prover algum conforto. Os concursos públicos estão disputadíssimos, os consultórios psiquiátricos lotados e até as relações humanas matematizadas (terminei com ele porque não estava sendo vantajoso para mim, ouvimos por aí): a vida assumiu as características de uma sala branca de hospital, antisséptica, entediante e pretensiosamente segura.

A aventura da existência, com seus riscos, seus medos, seus monstros e heróis, foi reduzida a aplicações bancárias, jogos sem perdedores, sexo com bonecos de silicone, literatura polida, conversa socialmente aceitável, estatização dos sonhos, da linguagem, da intimidade. O que tento demonstrar é que os diferentes aspectos da vida humana estão sob os olhos cinzentos e as mãos inférteis do raciocínio lógico-formal, sem condescendência para com o inarticulado ou absurdo.

Entretanto, suspeitamos – íntima e inconfessavelmente – esse componente absurdo que supera nossa capacidade de explicação e gerência. A imaginação teima em apresentar sua força revigorante do espírito, e talvez por isso damos vazão a esse universo de fábula e composição nas horas que gastamos com virtualidades e o consequente paralelismo existencial que hoje provamos com nosso modo conectado de ser. É preciso um bocado de ilusão para transar a distância, matar zumbis num jogo 3D, ser um personagem no instagram, acreditar nas camadas de significados que as mídias sociais conseguem acrescentar aos fatos. Particularmente, penso que nossa paradoxal presença no mundo virtual revele, ainda que minimamente, nossa pretensão e gosto pelo irreal. É como um escape para a alma que está aprisionada pelo discurso de racionalidade e cientificismo que tem balizado a vida pessoal.

Mas a razão não é suficiente. E quando já adulto li Dom Quixote, e revivi a experiência de menino que acredita nas próprias criações (transcendentes do corpo bruto e seco da existência como assimilada pelos sentidos), percebi que Cervantes e os grandes mestres da arte confirmavam-me que a infância é paradisíaca justamente por tomar como premissa aquilo que, enquanto adultos desventurosos, esquecemos ou excluímos do nosso credo vulgar: a verdade de que viver não basta.

 

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