Uma das coisas que frequentemente repito é que o amor não é um sentimento. Não poderia ser, pois sentimentos são evanescentes. Ao longo dia, sentimos alegria, tristeza, euforia, dor, tédio, etc: com a profundidade de uma novela da Globo, eles dão o seu recado e passam. Nem por isso são necessariamente ruins ou um “defeito” de fábrica dos homens. Eles são o que são: movimentos superficiais que sinalizam estados passageiros.

Sendo assim, qualquer decisão baseada em um sentimento é temerária; reforça o risco de escolha impensada, arrependimento futuro. Se você está eufórico com alguma coisa que lhe aconteceu, sabe que não é o melhor momento para tomar grandes decisões; se está triste porque a namorada não reconhece mais seus encantos, deve evitar aquele hit musical que pode levar a pensamentos suicidas. Em resumo: a superficialidade condicional dos sentimentos não serve à livre-escolha; antes, devem ser encarados como são e usados favoravelmente pela pessoa que vive desde seu núcleo substancial.

Pois a alegria do momento pode ser aprofundada: ela não deixa de ser uma porta de entrada para outros “andares” da vida interior. É de se pensar: “por que isso me deixa tão alegre, furioso, animado, chateado?”. Então o eu que sente – e que não se confunde com os sentimentos que passam – pode subir um grau no mapeamento pessoal e sair daquele estado momentâneo e empírico com uma nova “posse de si”. Por isso sentimentos podem servir a cada um de nós: porque é possível não ser escravo deles; senti-los, porém governá-los.

É isto que deve acontecer com os homens e mulheres maduros. Todos os dados da realidade que entram pelos sentidos e geram, também, aqueles pequenos e superficiais movimentos, não fogem ao crivo da consciência de si. Sem recair nos extremos – sentimentalismo ou insensibilidade máximos – eles conferem a adequada importância ao que sentem e inteligentemente usam aquilo a seu favor. Só assim a alegria sentida com o bolo que cresceu e ficou macio pode um dia tornar-se alegria cristã – o que se distingue por uma espécie de instalação existencial.

Digo tudo isso para destacar a puerilidade dos adultos de hoje. O sentimentalismo é uma realidade e sua presença na convivência humana – aviltada justamente por isso – é um obstáculo à intimidade, à troca verdadeira de vida e ao toque mútuo de misérias. Estamos andando, falando, trabalhando e jogando entre carentes. Piores do que os cães – estes sim, legitimamente carentões – homens e mulheres da massa mendigam elogios, atenções e curtidas sem que efetivamente os mereçam. “Choque de realidade”, para eles, é qualquer simples afirmação daquilo que é.

Lembro daquele caso do saudoso Clodovil Hernandes, quando deputado federal. Numa discussão acalorada dentro do plenário da Câmara, o apresentador chamou a uma colega de “feia”. Para além do que objetivamente estava sendo discutido, a nobre deputada saiu da Casa aos prantos, gritando aos quatro ventos que tinha sido insultada ao ser chamada de feia. A cena era grotesca, reafirmava a imaturidade dos nossos representantes políticos e – mais do que isso – demonstrava a total inaptidão dos “adultos” em reconhecer a realidade. Pois, de fato, ela era tão feia quanto um cão chupando manga.

O caso é modelar (pedagógico). É isto que atualmente predomina nas conversações, nas redes sociais, nas relações humanas: uma abjeta massagem coletiva de ego, onde um precisa levantar a bola do outro para que a porcaria de suas vidas seja menos insuportável. Vivemos, em outras palavras, numa Sodoma Carentosa.

Como falar de “destinos do país”, “moral”, “estudos avançados”, “literatura clássica” ou qualquer outra realidade humana grave com quem não aceita que é feia? Com quem está chateado porque seu amiguinho não telefonou para sair, ou irado no facebook porque alguém discordou de sua afirmação?

Simplesmente não dá. Crescer, crescer, crescer não é um mantra apenas: é o único meio de tornar a própria vida digna de ser chamada humana, ao invés de sair por aí chorando com um exemplar do “Imbecil Coletivo” debaixo do braço.

 

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