Quando nos perguntam “quem somos” – e se quisermos realmente responder à pergunta – é preciso contar uma história. Pela história pessoal – sucessão de atos, fatos, acontecimentos desejados ou não – é possível transmitir aquilo que permitirá ao outro a compreensão, ainda que inicial, de quem somos: o argumento. É isto que narramos quando queremos convencer alguém a assistir a um filme, ler um romance ou conhecer alguém; tentamos expressar uma “forma” que contenha o sentido daquela obra ou vida e por isto possa ser captada pelo ouvinte.

Se me perguntam quem eu sou, necessariamente começo dizendo que sou professor e, em seguida, conto como isto se deu ao longo da minha vida, desde a minha infância – quando eu ensinava os conteúdos escolares que aprendia aos primos que me visitavam durante as férias. Sempre gostei das escolas que frequentei, da dinâmica em sala, da relação professor – aluno. Por isto, também, fui catequista, professor particular, estagiário de História, coordenador pedagógico, professor de cursos preparatórios, de cursos técnicos, de graduações a distância, de ensino médio.

Por alguns anos quis apenas ensinar. Depois de conhecer Olavo de Carvalho, Luciane Amato, Eduardo Dipp, Ângelo Monteiro, Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, Fátima e Renan Frighetto, e outros professores que foram surgindo após meus vinte anos, quis também aprender. Filosofia; História antiga, medieval e brasileira; Psicologia; Antropologia; Literatura e crítica literária. Muitos interesses intelectuais foram despertados pela atividade destes mestres.
Numa destas trajetórias, conheci a filosofia espanhola do século XX, empreendida por José Ortega y Gasset, Julian Marias, Xavier Zubiri, Pedro Lain Entralgo, etc. Janelas da realidade foram abertas para mim com a perspectiva desde a qual me ensinaram o que era viver, eleger, conviver, morrer. Instalei-me nesta mesma perspectiva, tornando-a meu continente (todas as minhas aulas, cursos e textos são expressões desta morada).

Passei a dedicar a maior parte do tempo dos estudos às obras espanholas. E justamente por isso, passei a estudar menos, lendo com o cuidado de quem precisa viver. Pagar contas, cuidar da família, cumprir com as obrigações do mundo civil: tudo deveria estar integrado em minha vida, ou ela não seria minha. E desde então nutro certo horror pelo abstracionismo intelectual dominante, as vidas “geniais” ocas, desprovidas de carne e osso.

Por mais que a imaginação complete uma série de conhecimentos, é preciso experimentar certas coisas para manter viva a baliza do sangue. Mais do que em qualquer outro momento da história, acredito que hoje os grandes intelectuais são aqueles que não perdem de vista o horizonte da vida, sentida e – como diria Unamuno – doída. É o peso da realidade, aceito como circunstância salvífica, que me protege do modernismo vazio e dos dizeres sem substância.

São meus filhos, minha esposa, meu cachorro; minha poesia prosaica que mantêm minha vida instalada em continente firme. Justamente nisto o professor reconhece-se homem, das entranhas ao destino eterno.